Criminosas de oito pernas

Para estrear o primeiro post, decidi escrever um pouco sobre as aranhas que estudo. Não pensem que é apenas questão autopromoção, mas essas aranhas (assim como a grande maioria) são realmente bem interessantes!

As aranhas (ordem Araneae) estão entre os grupos de animais com maior diversidade, com pouco mais de 40.000 espécies descritas, distribuídas em 109 famílias. É a sétima maior ordem zoológica, perdendo apenas para cinco ordens de insetos e da ordem Acari (ácaros e carrapatos) entre os aracnídeos. Ocupam uma grande variedade de habitats terrestres e desempenham papel importante na regulação de populações de artrópodes, com conseqüências para a estruturação de comunidades e funcionamento dos ecossistemas.

Algumas espécies de aranhas

Toda essa diversidade do grupo fica ainda mais intrigante quando se constata que as aranhas são predadores generalistas que se alimentam principalmente de insetos, sendo peculiares entre os artrópodes por ser um táxon quase que exclusivamente carnívoro com algumas exceções, como aranhas que se alimentam de pólen e néctar. Sempre que alguém pensa em aranhas lembra logo da teia pra capturar insetos, mas apesar disso muitas aranhas nem mesmo constroem teias para capturar suas presas, como as aranhas saltadoras (família Salticidae), que caçam ativamente suas presas. Além disso, algumas desenvolveram estratégias altamente especializadas de forrageamento durante sua história evolutiva, que não correspondem a esses padrões gerais do grupo. Uma destas estratégias é o cleptoparasitismo.

Cleptoparasitismo em ação!

O cleptoparasitismo é uma forma de interação onde um organismo “rouba” algum recurso de outro, geralmente alimento. Essa estratégia de forrageamento é utilizada por vários grupos de animais vertebrados, como mamíferos e aves e invertebrados, como insetos e aracnídeos. Contudo, em alguns artrópodes, o roubo de alimento tornou-se a única estratégia de forrageamento, e muitos cleptoparasitas são morfológica e comportamentalmente adaptados para esta forma de forrageamento, como, por exemplo, as aranhas do gênero Argyrodes Simon, 1864.

Aranha da espécie Argyrodes elevatus

Este gênero de aranhas é composto por cerca de 100 espécies descritas dentro da família Theridiidae (subfamília Argyrodinae). É composto por espécies cosmopolitas e, em sua maioria, de pequeno tamanho (em torno de 5,00mm), com distribuição tropical ou subtropical. Muitas delas normalmente não constroem teias como outras aranhas, vivendo habitualmente em teias de outras aranhas tecedeiras e agindo como cleptoparasitas.

Argyrodes elevatus alimentando-se de uma presa capturada por Argiope argentata.

A maioria das aranhas desse gênero passa todo seu ciclo de vida em teias de outras aranhas, principalmente as do gênero Nephila, normalmente se alimentando de pequenas presas que não são percebidas por sua hospedeira. Elas também podem se alimentar de uma presa grande junto com a hospedeira, sem que esta perceba sua presença. Embora quase sempre sejam reconhecidas como cleptoparasitas, o gênero Argyrodes exibe uma diversa variedade de estratégias de forrageamento que normalmente envolve a exploração de recursos de outras aranhas. Podem interagir com outras aranhas de várias maneiras, além do cleptoparasitismo verdadeiro.

Enquanto algumas espécies de Argyrodes podem ser cleptoparasitas propriamente ditas, roubando presas de suas hospedeiras ou compartilhando uma presa grande com sua hospedeira, outras podem se comportar como comensais, alimentando-se de presas pequenas que suas hospedeiras ignoram. Em adição a estes comportamentos, recentemente foi documentado aranhas do gênero Argyrodes roubando e consumindo teia de suas hospedeiras. Em alguns casos, chegam a se alimentar de suas hospedeiras quando estas morrem e permanecem na teia…e além disso, podem também atacar e matar a hospedeira no momento em que elas estão realizando a troca de exoesqueleto.

Algumas formas de forrageamento realizadas por espécies da subfamília Argyrodinae (adaptado de Whitehouse et al. 2002)

O fato de Argyrodes viver nas teias de suas hospedeiras as livras do custo energético de construir suas próprias teias para captura de presas. Essa estratégia possivelmente aumenta o fitness dos indivíduos que realizam esse comportamento incomum.

Apesar de muitos trabalhos sobre o comportamento do gênero Argyrodes, estudos sobre a sua ecologia ainda não são muito comuns. Atualmente, é ressaltada a importância de mais estudos filogenéticos sobre o grupo. Além disso, também sugerem uma maior preocupação com a ecologia deste grupo, devido à relevância que as questões ecológicas, incluindo as interações entre Argyrodes e suas hospedeiras, possuem para uma maior compreensão destas aranhas de hábitos tão incomuns.

Dá próxima vez que você observar uma aranha na teia, olhe um pouco melhor e talvez poderá encontrar uma dessas pequenas “criminosas” de oito pernas vivendo sorrateiramente na teia de sua hospedeira.

Para saber mais:

Elgar, M.A. 1993. Inter–specific associations involving spiders: kleptoparasitism, mimicry and mutualism. Memoirs of the Queensland Museum 33: 411–430.

Foelix, R.F. 1996. Biology of Spiders. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2nd ed., 336p.

Gonzaga, M.O.;  Santos, A.J. & Japyassú, H.F. 2007. Ecologia e Comportamento de Aranhas. Interciência, Rio de Janeiro.

Whitehouse, M.E.A.; Agnarsson, I.; Miyashita, T.; Smith, D.; Cangialosi, K.; Masumoto, T.; Li, D. & Henaut, Y. 2002. Argyrodes: phylogeny, sociality and interspecific interactions – a report on the Argyrodes symposium, Badplaas 2001. Journal of Arachnology, 30: 238–245.

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