Sacrifício materno

O Dia das Mães está chegando e isso nos faz lembrar do quanto nossas mães sacrificam-se por nós. Obviamente tal comportamento tem uma grande função evolutiva básica: assegurar a sobrevivência da prole. Dessa forma, as mães que cuidam de sua prole de forma mais efetiva tem um ganho em fitness. Falando dessa forma, posso parecer um tanto amargo quanto ao amoroso papel de nossas mães durante nossa vida mas, como diria Darwin, “há uma grandeza nesta visão da vida…“.

À primeira vista, as pessoas devem pensar que apenas mamíferos, como nós humanos, são tão caprichosos com sua prole…mas uma grande quantidade de mães no reino animal têm cuidado materno e em alguns casos, até mais surpreendente que aqueles demostrados pelas mães mamíferas, chegando ao extremo de sacrificar literalmente sua vida pela de sua prole. Um exemplo surpreendente disso acontece em um pequeno aracnídeo conhecido como pseudoescorpião (figura 1).

Figura 1: Um pseudoescorpião da espécie Paratemnoides nidificator.

Os pseudoescorpiões (Ordem Pseudoscorpiones) são pequenos aracnídeos tendo entre 0,5 e 10,00 mm de comprimento. Assemelham-se a diminutos escorpiões sem o télson (ou vulgarmente falando, a cauda do escorpião), daí o nome que significa “falso-escorpião”. Embora sejam praticamente desconhecidos (com exceção dos biólogos e afins), são mais abundantes  e muito diversificados, existindo um pouco mais que 3 mil espécies distribuídas em 425 gêneros e 24 famílias. Ocorrem na grande maioria dos ecossistemas terrestres, exceto os mais frios, ocupando uma ampla variedade de microhábitats como folhas caídas, troncos de árvores, galhos em decomposição, espaços entre pedras, cavernas, ninhos de aves e tocas de outros animais. Apesar de serem até mais comuns que os escorpiões verdadeiros, seu pequeno tamanho e hábitos crípticos dificultam a possibilidade de serem vistos na natureza.

Os pseudoescorpiões em geral são animais solitários, encontrando-se apenas para o acasalamento, assim como na maioria dos aracnídeos. Contudo, entre os aracnídeos existem algumas poucas exceções como o caso de aranhas sociais que vivem em grandes colônias cooperando na construção de grandes teias e na captura de presas. Ainda entre os aracnídeos, uma espécie de pseudoescorpiões constitui um exemplo singular de socialidade, a espécie Paratemnoides nidificator (Família Atemnidae) que vivem em pequenas colônias de poucos indivíduos (figura 2) até grandes colônias com mais de 200, onde os indivíduos cooperam na manutenção da mesma e na captura de presas.

Figura 2: Parte de uma pequena colônia de pseudoescorpiões da espécie Paratemnoides nidificator no Cerrado de Uberlândia-MG.

Apesar de todas as espécies de pseudoescorpiçoes exibirem alguma forma de cuidado parental, esse comportamento pode ser ainda mais complexo em algumas espécies, como no caso de P. nidificator, que possui um tipo de cuidado parental cooperativo. A divisão de tarefas nessa espécie também se estende ao cuidado parental. Os indivíduos adultos protegem e alimentam tanto sua prole como a de outros indivíduos da colônia.

O comportamento social dessa espécie no Cerrado brasileiro vem sendo estudado pelo doutorando Everton Tizo-Pedroso e seu orientador Prof. Dr. Kleber Del-Claro, ambos do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais da Universidade Federal de Uberlândia. Além de estudarem a socialidade nesta espécie, estes pesquisadores vêm descobrindo a ocorrência de outros comportamentos complexos surpreendentes nessa espécie (veja as dicas de leitura no final do post para mais informações).

Os pseudoescorpiões controem um ninho de seda (câmara de incubação – figura 3a) no qual uma fêmea permanece dentro em tempo quase integral mesmo após a eclosão dos filhotes. Em condições desfavoráveis de escassez de alimento ou mesmo quando a mãe não consegue alimentar efetivamente sua prole, as chances de ocorrência de canibalismo entre os filhotes ou a morte dos mesmos por inanição aumenta significativamente. Nessas condições a mãe realiza um comportamento extremo, sacrificando-se literalmente pela sua prole, comportamento esse conhecido como matrifagia.

Na execução deste comportamento (figura 3), a mãe sai do ninho e realiza uma série de movimentos com seus pedipalpos (garras) atraindo seus filhotes (figura 3b). A mãe então levanta os pedipalpos e permanece imóvel, logo após os filhotes se dispõe ao redor da mãe e agarram as pernas e outras partes do corpo dela com seus pedipalpos (figura 3c). A seguir os filhotes começam a se alimentar do corpo mãe (figura 3d), que não oferece nenhum tipo de resistência à ação dos filhotes. Depois de terem consumido a mãe, os filhotes agora sem a proteção materna, permanecem juntos e caçam em grupo, podendo iniciar a formação de uma nova colônia.

Figura 3: Comportamento de matrifagia em Paratemnoides nidificator (modificado de Tizo-Pedroso & Del-Claro, 2005).

Essa forma extrema de cuidado parental pode parecer cruel, mas apenas do nosso ponto de vista humano, mas excluindo-se essa visão preconceituosa, é possível entender a importância evolutiva desse comportamento. A matrifagia evita o canibalismo entre irmãos nos estágios iniciais de desenvolvimento, consequentemente, evita a dispersão dos mesmos. Esse sacrifício materno pode ser considerado uma importante estratégia evolutiva para a manutenção da tolerância entre os indivíduos que formarão uma nova colônia.

Dessa forma, segundo os autores citados anteriormente, a matrifagia, o cuidado maternal extendido e o cuidado parental cooperativo (entre outros), devem consituir fatores importantes para a evolução do comportamento social em Paratemnoides nidificator.

Então, no domingo das mães lembrem-se, sua mãe pode até não ser um pseudoescorpião…mas de certa forma, também sacrifica-se por você!

Para saber mais:

Del-Claro, K. & Tizo-Pedroso, E. 2009. Ecological and evolutionary pathways of social behavior in Pseudoscorpions (Arachnida: Pseudoscorpiones). Acta Ethologica, 12:13-22.

Harvey, M.S. 2002. The neglected cousins: What do we know about the smaller arachnid orders? Journal of Arachnology, 30:357–372.

Tizo-Pedroso, E. & Del-Claro, K. 2008. A Sociedade Secreta dos Pseudo-escorpiões. Ciência Hoje, 253: 32-37.

Tizo-Pedroso, E. & Del-Claro, K. 2007. Cooperation in the neotropical pseososcorpion, Paratemnoides nidificator (Balzan, 1888): feeding and dispersal behavior. Insectes Sociaux, 54(2):124-131.

Tizo-Pedroso, E. & Del-Claro, K. 2005. Matriphagy in the Neotropical Pseudoscorpion Paratemnoides nidificator (Balzan 1888) (Atemnidae). Journal of Arachnology, v. 33, n. 3, p. 873-877.

Weygoldt, P. 1969. The Biology of Pseudoscorpions. Harvard University Press, Cambridge. 145pp.

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