Ecologia de zumbis

Estava pensando em algum tema para o próximo post ao mesmo tempo que assitia um especial de terror num canal de filmes…e logo depois eis que me surge um tema assim que vejo as notícias do dia! Inesperadamente uma das notícias tem justamente a ver com “mortos-vivos”! Calma, não se assuste com o título do post, mas até o final vocês perceberão que ainda sim precisam temer o que vão ler aqui!

A extinção é uma das maiores preocupações dos conservacionistas, simplesmente pelo fato de ser praticamente irreversível. Uma das principais causas de extinção é a fragmentação de hábitats, que ocorre quando uma determinada área natural homogênea é degradada e sua área original é separada em partes menores  (manchas) e separadas. Esse fenômeno causa um desequilíbrio ambiental principalmente em espécies com baixa mobilidade, dificultando o encontro de indivíduos dessas espécie que, consequentemente, inviabiliza o acasalamento das mesmas (figura 1). As causas da fragmentação podem ser naturais, como explosões vulcânicas e terremotos ou antropogênicas, ou seja, causadas pelos humanos como a agricultura ou expansão das cidades, sendo essas últimas as principais causas atuais de destruição e fragmentação de hábitats.

Figura 1: Esquema de fragmentação de um hábitat e consequente perda de espécies.

A fragmentação de hábitats mesmo moderada pode causar extinção não imediatamente após a fragmentação, mas com um certo “atraso” para as espécies dominantes. Outras espécies poderão se tornar extintas à medida que aumenta a destruição do habitat. Mais adiante, quanto mais fragmentado um hábitat se tornar, maior é o número de extinções causadas pela destruição anterior. Devido ao fato dessas extinções ocorrerem algumas gerações após a fragmentação, elas representam uma espécie de dívida de custo de um futuro ecológico da destruição do hábitat atual. Esse fenômeno é chamado de “débito de extinção” – ou seja, quanto mais fragmentados tornam-se os hábitats, as espécies de vida longa que estão reprodutivamente isolados de indivíduos da mesma espécie podem levar gerações para morrer (por exemplo, árvores de grande porte em fragmentos de floresta).

Esse fenômeno pode gerar interpretações errôneas em relação à ao estado de conservação da biodiversidade local. Isto dá origem a um maior número de espécies do que seria esperado para o tamanho do fragmento e a falsa impressão de que muitas espécies podem persistir em manchas de habitat que são pequenos demais para sustentar populações mínimas viáveis (PMV). Assim, espécies de baixa mobilidade e longevas tornam-se fadadas à extinção, muitas vezes passando despercebidas até que seja tarde demais.

Devido à essa característica essas espécies são chamadas de “espécies zumbis”, organismos fadados à extinção independentemente da perda de hábitat ser contida ou revertida. Somente pela dispersão assistida e/ou reprodução  artificial essas espécies podem sobreviver (um evento extremamente raro).

E qual a importância disso? Bem, negligenciar esse débito de extinção é uma das razões pela qual algumas pessoas têm superestimado o valor de florestas fragmentadas e secundárias na proteção contra a extinção de espécies. Resumindo, significa que as comunidades biológicas são muito menos resistentes à fragmentação do que seria esperado, dada a presença de dados sobre as espécies coletadas logo após o evento de degradação ou destruição do hábitat principal. Para observar plenamente a extensão dos efeitos causados pela fragmentação de hábitas pode  ser preciso esperar várias gerações (por exemplo, centenas de anos para uma espécie de árvore). Estudos enfocando esse “débito de extinção” são ferramentas muito úteis na busca por minimizar a perda de espécies por fragmentação de hábitats.

É preciso destacar também a importância de tais espécies na manutenção dos ecossistemas, pois muitas delas são de grande importância para os hábitats dos quais fazem parte. Por exemplo, muitos animais e plantas (como as epífitas) dependem de grandes árvores nas florestas tropicais, muitas vezes sendo restritas apenas às copas dessa grande árvore. Com o isolamento reprodutivo dessa espécie de árvore, toda a comunidade associada à ela também pode ser levada à extinção. Além disso, esta tragédia não é apenas restrita à biodiversidade tropical, também afeta diretamente a civilização humana. Não trata-se apenas da perda de pequenas espécies apararentemente insignificantes que vivem nas copas das grandes árvores no meio das florestas tropicais e sim de uma mudança completa dos serviços ambientais que beneficiam diretamente as populações humanas.

No início do post, quando disse que não deveriam se assustarem com o título mas sim com o conteúdo, apesar deste não se tratar de um texto de terror sobre mortos-vivos. Ainda sim assustador, pois a cada dia cerca de 150 espécies são extintas no mundo todo e muitas delas sem nem mesmo terem sido cientificamente descritas. Muitas das quais poderiam ter histórias naturais tão interessantes mas que nunca poderão ser contadas aqui nesse blog ou em qualquer outro lugar.

Para saber mais:

Bradshaw, CJA; Sodhi, NS & Brook, BW. 2009. Tropical turmoil: a biodiversity tragedy in progress. Frontiers in Ecology and the Environment, 7: 79-87.

Primack, RB & Rodrigues, R. 2001. Biologia da conservação. Editora Planta, Londrina. 328pp.

Shaffer, ML. 1981. Minimum population sizes for species conservation. BioScience, 31 (2): 131-134.

Tilman, D.; May, RM; Lehman, CL & Nowak, MA. 1994. Habitat destruction and the extinction debt. Nature, 371: 65 – 66.

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6 pensamentos sobre “Ecologia de zumbis

  1. Ôh beleeza…

    Pra quê que eu vou assistir aulas de Biologia da Conservação na UFRN depois dessa? ãhn? me diga? hehehe..

    Celito vc é ótimo. Super didático =)

    • Célio, adorei o post. Muito bem escrito e com um tema muito interessante, apesar de ser também muito triste.
      Achei lindo você falando sobre “dispersão assistida”! 😉 Muito fofinho o termo… rsrs Nunca tinha ouvido falar.
      Espero que você continue postando sempre!
      Parabéns!

  2. E de muita importacia de tais especies para qe ao ecossistema siga sua manuntençao,onde muitas plantas tem um valor significativo para animais,onde elis mantem sua sobrevivencia.Porem mesmo com muita luta ainda existe em nosso meio a falta de consientizaçao,onde o qe qerem e apensa amenizar com algo que esta explicito.

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