Lágrimas de sangue

Encarando o inimigo

 No mundo natural, os organismos precisam o tempo todo lidar com o dilema de “comer” e não deixar-se ser “comido”, portanto, é essencial estar preparado para se defender contra o ataque de um possível predador. Nessas situações extremas nas quais estamos diantes de um perigoso inimigo, chorar é uma das coisas mais inúteis a se fazer nesse momento.  

Contudo, “chorar” é uma das principais defesas de um pequeno lagarto encontrado nos desertos e regiões áridas dos EUA. 

Figura 1: Lagarto da espécie Phrynosoma cornutum.

 

O lagarto conhecido como “lagarto espinhoso do Texas” (Phrynosoma cornutum) (figura 1) é uma das 14 espécies de largatos espinhosos dos EUA, onde também é conhecido como “sapo espinhoso” apesar de, obviamente, não ser um sapo (esse é apenas um exemplo da confusão que os nomes comuns das espécies podem causar, mas isso fica pra outro post). Como vocês saberão lendo esse post, é um animal muito bem adaptado ao ambiente em que vive.

Essa espécie de lagarto alimentam-se apenas de insetos, sendo que cerca de 70% destes são formigas do gênero Pogonomyrmex. Essas formigas são conhecidas por possuírem um veneno muito forte, mas não causam nenhum perigo para o Phrynosoma cornutum, que as captura com a língua e as engole imediatamente. As formigas vão direto para a garganta do lagarto, onde há um tipo de muco que as imobilizam efetivamente. Dessa forma, o lagarto pode alimentar-se de várias dessas formigas por vez sem se machucar. O restante da dieta é complementa com gafanhotos, besouros e cupins.  

Entre seus principais predadores estão as aves (figura 2a), serpentes, ratos e canídeos selvagens. Contudo, esse pequeno lagarto (cerca de 7 cm de comprimento) é um animal muito bem adaptado para se defender de seus inimigos. À primeira vista, já é possível perceber os vários espinhos que cobrem quase todo o seu corpo, da cabeça à cauda. Isso faz com que a maioria dos predadores desistam de atacá-lo logo após o primeiro contato. Além disso, também conta com uma efetiva camuflagem para o ambiente em que vive (figura 2b). O padrão de coloração o ajuda a se confundir com o ambiente, dificultando a sua localização por predadores como raposas ou aves de rapina. Quando ameaçado, utiliza geralmente uma técnica de achatar o corpo junto ao solo, impedindo que o predador ataque a região ventral, que é mais delicada e onde não há espinhos. Desse modo, apenas a região espinhosa de seu corpo fica à mostra para o agressor. Além disso também pode inflar seu corpo e estica as pernas para parecer mais intimidador (figura 2c) e tornar-se ainda mais difícil de ser abocanhado, do mesmo modo que faz o peixe baiacu de espinhos.

Figura 2: a) Pássaro predando um lagarto espinhoso jovem; b) Um lagarto espinhoso camufalndo-se ao ambiente; c) Lagarto espinhoso em display defensivo.

 Como se tudo isso já não bastasse, essa pequena fortaleza ambulante ainda conta com mais uma defesa. Quando todas as outras defesas falham e o lagarto encontra-se encurralado por um predador, ele chora! Pode parecer engraçado à princípio, mas só até perceber que não são simples lágrimas e sim o próprio sangue do lagarto! Em uma situação extrema, o lagarto espinhoso baixa a cabeça e esguicha um jato de sangue dos seus olhos em direção à boca do oponente (ver vídeo abaixo). Ele consegue esguichar sangue pelos olhos aumentando a pressão na região ocular, rompendo alguns vasos e chega a espirrar até 2% de sua massa corporal em um jato de sangue. Além de assustar o predador, o sangue deste lagarto possui substâncias químicas tóxicas derivadas das formigas que consome. Esse comportamento de auto-hemorragia (ou sangramento reflexo) é relativamente comum em insetos (ver Eisner et al, 2005), porém os lagartos espinhosos são provavelmente os únicos vertebrados a realizarem esse tipo de defesa.

  

Os canídeos selvagens são particularmente mais sensíveis ao sangue tóxico deste lagarto e quando o sangue os atinge, passam muito tempo balançando a cabeça para tentar se livrar dele. Enquanto isso, o pequeno lagarto foge em segurança. O lagarto espinhoso parece saber dessa vulnerabilidade dos canídeos, pois utilizam essa técnica de defesa mais frequentemente contra esse tipo de oponente. Essa mesma técnica é também frequentemente utilizada em encontros com cães domésticos. Interações com cães domésticos são cada vez mais comuns nos hábitats dos lagartos espinhosos, devido à diminuição do seu ambiente natural e expansão das cidades. 

Infelizmente, este não é o único problema que os lagartos espinhosos têm enfrentado. Nos últimos anos, a população de lagartos espinhosos teve um declínio de cerca de 30%. Além da diminuição do seu hábitat, uma das principais causas desse declínio populacional é devido ao uso de pesticidas e a expansão da formiga lava-pés, nativa da América do Sul (principalmente do Brasil) e que tem invadido os EUA e outros países, sendo transportadas não-intensionalmente em navios. Ambos têm erradicado colônias das formigas Pogonomyrmex nativas, a principal fonte de alimento dos lagartos espinhosos. 

Por outro lado, felizmente, muito esforços têm sido realizados para a conservação destes animais. Os lagartos espinhosos são considerados atualmente espécies protegidas nos EUA, sendo ilegal a sua coleta, posse, transporte ou venda sem permissão especial. O que é muito importante para esses animais peculiares e que também são muito importantes na cultura dos EUA. Estes lagartos são considerados sagrados por alguns povos nativo-americanos do Sul dos EUA e México, sendo um tema comum na arte desses povos. O lagarto espinhoso é também considerado o réptil oficial do estado do Texas e o mascote da Texas Christian University (TCU)

  

 

Para saber mais: 

Bateman, P.W. & Fleming, P.A. 2009. There will be blood: autohaemorrhage behaviour as part of the defence repertoire of an insect. Journal of Zoology, 278 (4): 342–348. 

Cooper Jr, W.E. & Sherbrooke, W.C. 2010. Plesiomorphic escape decisions in cryptic horned lizards (Phrynosoma) having highly derived antipredatory defenses. Ethology, no. doi: 10.1111/j.1439-0310.2010.01805.x. 

 Eisner, T.; Eisner, M. & Siegler, M. 2005. Secret weapons: defenses of insects, spiders, scorpions and other many-legged creatures. Harvard University Press, Cambridge. 

 Middendorf, G.A., III & Sherbrooke, W.C. 1992. Canid elicitation of blood-squirting in a horned lizard (Phrynosoma cornutum). Copeia, 1992 (2): 519-527.  

Pianka, E.R. & Parker, W.S. 1975. Ecology of horned lizards: a review with special reference to Phrynosoma platyrhinos. Copeia 1975: 141–162.  

Sherbrooke, W.C. 2003. Introduction to Horned Lizards of North America. University of California Press. Berkeley.  

Sherbrooke, W.C. 2008. Antipredator responses by Texas Horned Lizards to two snake taxa with different foraging and subjugation strategies. Journal of Herpetology, 42: 145–152.  

 Whitford, W.G. & Bryant, M. 1979. Behavior of a predator and its prey: the horned lizard (Phrynosoma cornutum) and Harvester Ants (Pogonomyrmex spp.). Ecology, 60: 686–694.  

Whitford, W.B. & Whitford, W.G. 1973. Combat in the horned lizard, Phrynosoma cornutum. Herpetologica, 29: 191-192.  

  

PS: Hoje, dia 03 de setembro é comemorado o Dia Nacional do Biólogo! Parabéns a todos os colegas biólogos e àqueles também que logo em breve serão!  

Anúncios

2 pensamentos sobre “Lágrimas de sangue

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s