O Pobre Diabo

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Numa pequena ilha australiana , uma pequena e injustiçada criatura passa por um momento infeliz de sua história natural. Para muitos, essa criatura é considerada um diabo e talvez por isso, sua reputação não ajuda muito na sua proteção.

Contudo, farei aqui o papel de “advogado do diabo”…afinal este diabo, vale a pena ser protegido!

 

O pequeno diabo do qual falo é na verdade uma criatura que não merece o nome que lhe foi dado: diabo da Tasmânia. O Sarcophilus harrisii (seu nome científico) é um mamífero marsupial carnívoro da família Dasyduridae, atualmente encontrado apenas na ilha de Tasmânia.

Atingindo apenas o tamanho de um pequeno cachorro, o S. harrisii é atualmente o maior carnívoro nativo da Austrália, desde que o último exemplar de tilacino (ou lobo-marsupial) morreu em 1936 e esta outra espécie de marsupial carnívoro tornou-se extinta. O pequeno S. harrisii (figura 1) é, no entanto, corpulento e possue uma característica pelagem preta com uma faixa branca entre o pescoço e as pernas anteriores. Outras características marcantes são o forte odor que exalam e o som estranho e barulhento que fazem, essa duas características são as que mais contribuíram para terem recebido o nome de diabo.

Figura 1: O diabo da Tasmânia (Sarcophilus harrisii)

Os diabos da Tasmânia são animais solitários, encontrando-se apenas na época do acasalamento ou em encontros fortuítos que quase sempre acabam em disputa por território ou alimento. São animais relativamente territoriais e costumam enfretar até mesmo grandes animais (humanos também) para defender seu território ou suas presas capturadas. Para isso, contam com uma efetiva musculatura no crânio que lhes confere, proporcionalmente, uma das mais poderosas mordidas entre os mamíferos!

Figura 2: Um grupo de diabos da Tasmânia disputando uma carcaça.

Essa poderosa mordida também é importante para a captura de suas presas: pequenos cangurus, vombates e outros pequenos marsupiais, bem como animais domésticos como ovelhas. Também alimentam-se de  animais mortos e costuma carregar grandes carcaças que encontram (figura 2), utilizando-se da força de suas mandíbulas.

Eventualmente, também alimentam-se de frutas, insetos, peixes, répteis e anfíbios. Devido à proximidade de seu habitat natural com as cidades, também podem invadir casas em busca de alimento, geralmente carregando os sacos de lixos dos seu vizinhos humanos.

Esses intrigantes animais possuem habitos noturnos/crepusculares e durante o dia costumam dormir ou descansar entre grandes arbustos em em tocas. Quando jovens conseguem escalar árvores em busca de pequenas presas como lagartas e ovos de pássaros. Escalar árvores também é uma importante estratégia para se refugiar de predadores como grandes lagartos, cobras ou mesmo outros diabos da Tasmânia. Os diabos da Tasmânia também são bons nadadores e costumam ser observados em rios ou lagos.

Apesar de atualmente serem restritos apenas à ilha da Tasmânia, até o período Pleistoceno, as populações passaram por um evento de declínio e tornou-se restrita a poucas populações na metade do período Holoceno, cerca de 3.000 anos atrás. Durante esse mesmo período houve uma significativa elevação dos níveis do mar, fazendo com que a população do continente australiano fosse totalmente isolada da população da ilha da Tasmânia (ver Brown 2006, na leitura recomendada).

As causas da extinção dos diabos da Tasmânia da ilha principal (Austrália) permancem incertas, mas o declínio das populações coincide com a expansão das populações dos indígenas australianos (por quem eram caçados) e dos dingos (com os quais competiam por presas e território). Uma terceira hipótese  também é proposta, o fenômeno El-Niño foi bastante forte durante o Holoceno Médio e o diabo da Tasmânia, poderia ter sido altamente sensível às alterações causadas por esse fenômeno. Enquanto isso na Tasmânia, onde não havia ocorrência de dingos, em tempos mais recentes os diabos da Tasmânia sofreram pressões dos humanos europeus recém-chegados para colonizar a ilha (no início dos anos 1.800), que os utilizavam como alimento e também os matavam para proteger os animais domésticos trazidos para serem criados na ilha.


Figura 3: Um do últimos tilacinos vivo, fotografo em 1933 em um Zoológico da Tasmânia

Assim como os diabos da Tasmânia, outros marsupiais sofreram um rápido declínio após a chegada dos colonizadores europeus. O marsupial que sofreu mais com esse extermínio, foi o principal competidor do diabo da Tasmânia: o tilacino ou lobo-marsupial. O tilacino era um predador dos diabos da Tasmânia e estes, predavam os filhotes do primeiro e ambos também competiam pelas mesmas presas. Com a extinção do tilacino em 1936 (figura 3), a população dos diabos da Tasmânia estava também em direção a extinção, porém em 1941 tornaram-se protegidos por lei e sua população começou aos poucos a se recuperar, agora sem o seu principal competidor, o que facilitou a recuperação de suas populações.

No ano de 1996 foram classificados pela IUCN como estado de conservação “seguro” ou “pouco preocupante, porém logo após terem sido classificados nessa categoria, os diabos da Tasmânia sofreram mais um grande impacto em sua população, com a dispersão de uma infecção fatal.

Figura 4: Um diabo da Tasmânia infectado pelo tumor facial.

Registrado pela primeira vez em 1996, um tipo devastador de tumor facil  (devil facial tumour disease – DFTD) começou a se espalhar pelas populações dos diabos da Tasmânia (figura 4). Essa doença devastadora intrigou os cientistas no início, pois não sabiam do que se tratava e o que mais os intrigavam, como esse tipo de câncer era transmitido entre os animais.

Os indivíduos infectados morriam em poucos meses e as estimativas demonstraram que haveria um declínio 20% a 50% da população selvagem de diabos da Tasmânia. As populaçães começaram então a ser monitoradas e a doença estudada.

A DFTD é um tipo de câncer transmissível e espalhou-se rapidamente entre os diabos, principalmente devido aos encontros agressivos entre os indivíduos, onde quase sempre ocorrem ferimentos causados por mordidas e assim, a doença é transmitida. A doença também espalhou-se rapidamente devido a baixa variedade genética das populações de diabos da Tasmânia e a uma mutação cromossômica única entre os mamíferos carnívoros, eles são mais susceptíveis a infecções cancerígenas.

Nos últimos anos, o conhecimento sobre essa doença aumentou e junto com isso, também aumentaram os esforços para a conservação dos diabos da Tasmânia. Já se sabe que o câncer manifesta-se inicialmente nas células de Schwann, que revestem e protegem as fibras nervosas. Agora os cientistas buscam a criação de uma vacina para conter a doença. Enquanto isso, o monitoramento da população tem visado o isolamento dos indivíduos infectados para evitar que a doença continue a se espalhar.

No ano de 2009, o estado de conservação do diabo da Tasmânia foi reavaliado pela IUCN e agora encontra-se na categoria “em perigo“. A conservação do diabo da Tasmânia não trata-se apenas da preservação de uma única espécie. Esse animal é um predador de topo, o que significa que  possue um importante papel ecológico no ecossistema que ocupa na ilha. O declínio dessa espécie é vista como um sério problema ecológico, pois a sua presença tem previnido o estabelecimento da raposa vermelha, ilegalmente introduzida na ilha em 2001.

Além disso, os diabos da Tasmânia também tem mantido em números limitados as populações de cães e gatos ferais (animais domésticos que vivem em ambiente selvagem), uma vez que os diabos consomem as carcaças que do contrário, serviriam de alimentos para estes animais. A raposa vermelha é uma espécie invasora problemática pois alimenta-se de muitos animais nativos, competindo com os diabos por essas presas e por territórios.

Figura 5: Fêmea de diabo da Tasmânia carregando seus filhotes.

Infelizmente, os diabos da Tasmânia ainda tem mais um problema a enfrentar; um problema comum a várias espécies: a destruição desenfreada de seu habitat. O desmatamento das florestas nativas tem exposto os abrigos onde as fêmeas cuidam de seus filhotes (figura 5). Isso tem aumentado a mortalidade da espécie, pois as fêmeas tendem a fugir desses habitas perturbados carregandos consigo seus filhotes, o que as torna mais vulneráveis.

Felizmente, os esforços conservacionistas tem mantido à salvo os diabos da Tasmânia e com a erradicação do câncer facil, as populações poderão voltar a aumentar. O apelo junto às comunidades humanas locais também tem ajudado a preservar a espécie, que há muito tempo já não é mais vista como uma criatura deomoníaca como era vista pelos primeiros humanos em contato com esta espécie e que lhe deram o nome de diabo.

Figura 6: Personagem Taz do desenho Looney Tunes da Warner Bros.

Uma importante contribuição para aumentar o carisma dos diabos da Tasmânia entre as pessoas foi o surgimento em 1954 do personagem Taz (figura 6) do desenho Looney Tunes, fazendo parte da mesma turma já famosa comporta por Pernalonga, Patolino e outros. Porém, apenas na década de 1990 o personagem começou a ganhar mais destaque e tornou-se tão famoso quanto seus outros companheiros, quando estrelou sua própria série: Taz-mania.

Após uma série de brigas judiciais em 1997 pelos direitos do nome do personagem entre a Warner Bros. e o Governo da Tasmânia, principalmente pelo fato da Warner Bros. ter ganho muito dinheiro com o personagem e nunca ter ajudado na preservação da espécie, ambas as partes entraram em um acordo e a Warner Bros. passou a financiar a preservação dos diabos da Tasmânia.

O futuro da espécie agora parece ser promissor, com a sociedade, governo e ONGs empenhadas na conservação dessa tão carismática espécie, que apesar de ainda carregar o nome de diabo, agora é querido por muitos.

Pra finalizar, a página do “Save the Tasmanian Devil Program” (figura 7) do Governo da Tasmânia, tem um video muito bem feito para alertar sobre a preservação dos diabos da Tasmânia (é só clicar aqui e ver o video no final da página).

Figura 7: Banner do "Save the Tasmanian Devil Program", do Governo da Tasmânia.

Leitura recomendada:
Brown, O. 2006. Tasmanian devil (Sarcophilus harrisii) extinction on the Australian mainland in the mid-Holocene: multicausality and ENSO intensification. Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 31: 49-57. DOI: 10.1080/03115510608619574

Jones, M.; C. Dickiman & M. Archer (Eds.). 1993. Predators with pouches: the biology of carnivorous marsupials. Australia, CSIRO Publishing, 486p.

Loh, R., Bergfeld, J., Hayes, D., O’Hara, A., Pyecroft, S., Raidal, S., & Sharpe, R. 2006. The Pathology of Devil Facial Tumor Disease (DFTD) in Tasmanian Devils (Sarcophilus harrisii). Veterinary Pathology, 43 (6): 890-895. DOI: 10.1354/vp.43-6-890

McCallum, H. 2008. Tasmanian devil facial tumour disease: lessons for conservation biology. Trends in Ecology & Evolution, 23 (11): 631-637. DOI: 10.1016/j.tree.2008.07.001

<span class=”Z3988″ title=”ctx_ver=Z39.88-2004&rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&rft.jtitle=Alcheringa%3A+An+Australasian+Journal+of+Palaeontology&rft_id=info%3Adoi%2F10.1080%2F03115510609506855&rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&rft.atitle=Tasmanian+devil+%28Sarcophilus+harrisii%29+extinction+on+the+Australian+mainland+in+the+mid-Holocene%3A+multicausality+and+ENSO+intensification&rft.issn=0311-5518&rft.date=2006&rft.volume=30&rft.issue=&rft.spage=49&rft.epage=57&rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.informaworld.com%2Fopenurl%3Fgenre%3Darticle%26doi%3D10.1080%2F03115510609506855%26magic%3Dcrossref%7C%7CD404A21C5BB053405B1A640AFFD44AE3&rft.au=BROWN%2C+O.&rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Biology”>BROWN, O. (2006). Tasmanian devil (Sarcophilus harrisii) extinction on the Australian mainland in the mid-Holocene: multicausality and ENSO intensification <span style=”font-style: italic;”>Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology, 30</span>, 49-57 DOI: <a rev=”review” href=”http://dx.doi.org/10.1080/03115510609506855″>10.1080/03115510609506855</a></span&gt;
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