Vampiros Naturais

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No dia 31 de outubro muita estará comemorando o “Dia das Bruxas” ou Halloween. Só pra deixar bem claro, o festival do Halloween é originalmente o  “Ano Novo Celta” (ou “Samhain“, que significa “o fim do verão”) e comemorado por muitas das religiões neopagãs, como a Wicca e o Druidismo. Contudo essa tradição (e muitas outras) foi incorporada pelo Cristianismo e transformada no  “dia de Todos-os-Santos“, popularmente conhecido como Dia das Bruxas, a festa tradicional comemorada principalmente nos EUA e “importada” para cá (quando na verdade, o “dia das bruxas” no hemisfério sul deveria ser comemorado no dia 30 de abril).

Apesar disso decidi aproveitar o clima e escrever um pouco sobre vampiros que, à propósito, andam muito em alta atualmente. Não, não vou falar daqueles vampiros das lendas como Drácula, Nosferatu e tantos outros, mas sim de vampiros reais!

 

Muitos animais alimentam-se de sangue e são bem conhecidos entre nós, principalmente por muitos deles alimentarem-se de sangue humano, como por exemplo sangussugas, carrapatos, morcegos, moscas e mosquitos.

Sendo o sangue uma substância rica em nutrientes como proteínas e lipídios que podem ser obtidos sem muito esforço, a hemotofagia (do Grego, haima “sangue” e phagein “alimentar-se”) evoluiu como preferência alimentar em muitos animais vertebrados ou invertebrados, mas principalmente entre os últimos.

A hematofagia evoluiu de forma independente em diferentes grupos animais (táxons), desde invertebrados como os artrópodes (ex. barbeiros, carrapatos, mosquitos), nematóides, anelídeos (sanguessugas) e  vertebrados, como peixes (lampréia), aves (gênero Buphagus) e mamíferos (morcego-vampiro) Contudo, a maioria dos animais hematófagos são artrópodes, cerca de 14.000 espécies, incluindo até mesmo alguns gêneros que não foram anteriormente considerados, como as mariposas do gênero Calyptra.

Os hematófagos possuem várias adaptações biológicas complementares para localizar suas presas. A maioria das espécies hematófagas são noturnas e silenciosas, a fim de evitar a detecção pela presa. Também desenvolveram órgãos sensores especiais para componentes físicos ou químicos, para detectar, por exemplo, os componentes do suor, CO2, calor, luz, movimento, etc.

Esses animais hematófagos  e são relativamente comuns no reino animal e muitos deles alimentam-se exclusivamente de sangue (hematófagos obrigatórios), enquanto outros utilizam essa estratégia apenas alternativamente (hematófagos facultativos). Contudo, recentemente foi descoberta no Leste da África uma pequena criatura que também se alimenta de sangue, porém, indiretamente.

A aranha Evarcha culicivora (família Salticidae) (figura 1), encontrada apenas nas regiões próximas do Lago Vitória no Quênia e Uganda, alimenta-se preferencialmente de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles que tenham previamente alimentado-se de sangue. Estudos realizados pelo aracnólogo Robert Jackson e seus colaboradores (ver “leitura recomendada” no final do post) demonstraram o comportamento incomum desta espécie de aranha em uma série de experimentos.

Figura 1: Aranha da espécie Evarcha culicivora.

Em um experimento, baseado na visão, as aranhas foram condicionadas  a escolher entre diferentes tipos de presas de tamanhos similares aos mosquitos (presas alternativas), entre eles mariposas, percevejos e outras aranhas. As presas eram ofertadas em duplas, sendo um mosquito e outra presa diferente, escondidas de forma que as aranhas não conseguissem vê-las. Esse experimento também demonstrou a preferência das aranhas pelos mosquitos, pois escolheram os mosquitos em 83% das vezes ao invés das presas alternativas.

Em outro experimento baseado na visão, quando as presas ofertadas eram mosquitos da mesma espécie, sendo um macho (que não se alimenta de sangue) e uma fêmea alimentada com sangue, em 78% das vezes aranhas escolheram os mosquitos fêmeas.

Apesar das aranhas da família Salticidae pela sua execelente visão, os pesquisadores demonstraram que a E. culicivora utiliza principalmente o olfato para selecionar as fêmeas de mosquitos carregadas de sangue. Um experimento realizado no qual as aranhas foram condicionadas a escolher suas presas baseando-se apenas no olfato, com duas opções de presas: fêmeas de mosquitos que foram alimentaradas com sangue e uma presa alternativa. Neste experimento as aranhas escolheram em 78% das vezes os mosquitos.

Ainda no experimento baseado no olfato, quando foram ofertadas como presas um mosquito macho e uma fêmea, 84% das presas escolhidas foram as fêmeas carregadas de sangue. Alternativamente, quando as aranhas tinham que escolher entre fêmeas alimentadas com uma solução de açúcar e fêmeas alimentadas com sangue, as aranhas também preferiam as fêmeas alimentadas com sangue em 90% das vezes.

Com esses experimentos (além de outros demonstrados no artigo), os pesquisadores comprovaram a preferência de E. culicivora por fêmeas de mosquitos que tenham previamente se alimentado de sangue (figura 2). Essas aranhas possuem um notável comportamento de escolha de presas altamente específico baseado tanto somente pela visão quanto somente pelo olfato. Essa característica faz da E. culicivora o único animal conhecido que seleciona sua presa baseado no que esta se alimentou previamente, alimentando-se indiretamente de sangue de vertebrados, podendo até ser considerada uma “aranha-vampiro“.

Figura 2: Aranha da espécie Evarcha culicivora predando uma fêmea de mosquito Anopheles.

É importante lembrar que as principais presas da E. culicivora são as fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles gambiae, conhecidas por serem os mosquitos vetores da malária humana. A malária é a mais importante doença transmitida por insetos e é especialmente na África sub-saariana onde o Plasmodium falciparum (protozoário causador da doença) e a malária são  letalmente prevalentes. E é justamente nessa região onde ocorre também a aranha Evarcha culicivora.

A compreensão do comportamento desta espécie de aranha pode ser um instrumento essencial para o combate da malária nesta região e talvez em outras também. Isso demonstra a importância de estudos comportamentais de espécies ainda pouco conhecidas pela Ciência e a importância também de investimentos em estudos de Conservação.

 

Leitura recomendada:

Jackson, R.R.; X.J. Nelson & G.O. Sune. 2005. A spider that feeds indirectly on vertebrate blood by choosing female mosquitoes as prey. Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A., 102 (42): 15155–60. doi: 10.1073/pnas.0507398102

Lehane, M. J. 1991. Biology of Blood-Sucking in Insects. London, Harper Collins Academic, 336 p.

Nelson, X.J.; R.R. Jackson & G.O. Sune. 2005. Use of Anopheles-specific prey-capture behavior by the small juveniles of Evarcha culicivora, a mosquito-eating jumping spider. Journal of Arachnology, 33 (2): 541–548. doi: 10.1636/05-3.1

Nelson, X.J. & R.R. Jackson. 2006. A predator from East Africa that chooses malaria vectors as preferred prey. PLoS ONE 1, e132. PMID: 17205136

Wesolowska, W. & R.R. Jackson. 2003. Evarcha culicivora sp nov., a mosquito-eating jumping spider from East Africa (Araneae : Salticidae). Ann Zool, 53: 335–338.

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