O curioso gato anfíbio

Segundo um “mito” bem popular, gatos não gostam de água….ou melhor, não gostam de estar na água. Isso é apenas uma meia verdade para os gatos domésticos mas muitos dos chamados gatos selvagens (com algumas exceções) não possuem hábitos de entrar em corpos d’água como lagos e rios.

Apesar dessa particularidade de alguns gatos, existe uma espécie pouco conhecida mas que possui tamanha afinidade com água que muitas vezes é chamado de “gato-anfíbio”.

O pequeno Prionailurus planiceps (figura 1)não apenas gosta de água como vive boa parte da sua vida próximo a rios e áreas inundadas da Tailândia, Malasia, Indonésia e Bornéu. O gato-de-cabeça-achatada (flat headded cat), como é popularmente conhecido, alimenta-se de peixes, crustáceos e anfíbios, alimentos estes que constituem boa parte de sua alimentação e que complementam capturando pequenos roedores e aves que também vivem próximo a essas áreas inundadas.

Este felino é um animal raro de hábitos crepusculares e pouco ainda é conhecido da sua biologia. Muito do seu comportamento e ecologia são suposições baseadas apenas na sua morfologia incomum a partir da observação de animais em cativeiro. Algumas dessas observações em cativeiro têm demonstrado que eles preferem presas que estão na água do que aquelas que são oferecidas em terra seca, sugerindo uma forte preferência por caçarem presas no ambiente aquático quando em seu hábitat natural.

Figura 1: Prionailurus planiceps

Apesar de ter o mesmo tamanho de um gato doméstico comum, seu corpo é alongado e possui uma cauda curta e sua cabeça é frontalmente achatada. Além disso, possui orelhas pequenas e olhos grandes. Essas características são adaptações notáveis ao tipo de ambiente e comportamento desses gatos. Outra característica marcante desses gatos são seus pés parcialmente palmados que facilitam sua locomoção na água.

Apesar de possuírem algumas semelhanças com outra espécie do mesmo gênero, o gato-pescador (P. viverrinus), o P. planiceps parece ser mais adaptado ao estilo de vida semi-aquático. Sua estrutura corporal alongada (figura 2), pés palmados e pré-molares alongados  permitem que o P. planiceps capture suas presas aquáticas com notável destreza. Essas caraterísticas têm sido utilizadas para comparações entre essa espécie de felino e mustelídeos semi-aquáticos, como lontras e ariranhas.

Figura 2: Plionailurus planiceps fotografado por uma “camera trap”.

Mesmo com todas suas particularidades e falta de conhecimento sobre sua biologia,  esse animal ainda parece atrair pouca atenção e sua situação é preocupante. Esse gato já foi considerado extinto em 1985 até ter sido avistado recentemente em 1995 na Malásia e no sul de Sumatra. Atualmente é classificado pela IUCN na categoria “ameaçado”, e os principais motivos dessa situação é a poluição dos rios e desmatamento das florestas próximas a esses rios. Dessa forma, a população de presas deste felino tem decrescido rapidamente, dificultando também sua sobrevivência. Devido às particularidades de sua ecologia e comportamento, tão bem adaptadas ao ambiente semi-aquático, medidas urgentes são necessárias para salvar essa espécie da extinção.

Visando esse objetivo, os conservacionistas têm se voltado para uma nova técnica de clonagem chamada de transferência nuclear intragenética (intergeneric nuclear transfer). Essa técnica consiste em retirar um núcleo de uma célula da epiderme do animal a ser clonado e transferí-la para um óvulo vazio de uma espécie semelhante. Utilizando-se dessa técnica, felinos selvagens africanos têm nascido após o desenvolvimento do embrião em óvulos e úteros de gatos domésticos e também já é possível o desenvolvimento de búfalos a partir de óvulos de vacas. Essa técnica, atualmente sendo desnvolvida por geneticistas tailandenses, pode permitir o desenvolvimento em laboratório do P. planiceps, sem a necessidade do acasalamento par-a-par.

Espécies tão singulares e raras quanto o Prionailurus planiceps devem ser prioridades nas definições de conservação de espécies. Vale lembrar também que os esforços realizados para salvar tais espécies geram subsídios e conhecimentos adicionais que também podem ser utilizados para a conservação de outras espécies que se encontrem em perigo, como é possível ver pela técnica citada anteriormente.

Leitura adicional

Bezuijen, MR. 2000. The occurrence of the flat-headed cat Prionailurus planiceps in south-east Sumatra. Oryx, 34: 222-226.

Dudgeon, D. 2000. Riverine biodiversity in Asia: a challenge for conservation biology. Hydrobiologia, 418 (1): 1-13.

Sunquist, M. & Sunquist, F. 2002. Wild cats of the World. Chicago: University of Chicago Press. pp. 233–236.

Wilting, A., Hearn, A., Sanderson, J., Ross, J. and Sunarto, S. 2010. Prionailurus planiceps. In: IUCN 2010. IUCN Red List of Threatened Species.

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5 pensamentos sobre “O curioso gato anfíbio

  1. Pingback: Tweets that mention O misterioso gato anfíbio « Histórias Naturais -- Topsy.com

  2. É triste, mais uma lamentável história de ameaça por devastação ambiental, mais triste ainda por ser na Ásia, onde os humanos não param de reproduzir e as perspectivas de melhora são limitadas.
    Quanto à questão do comportamento, é interessante perceber que, no Gênero “Panthera”, os leões não são muito chegados a uma água, ao passo que os tigres adoram rios, lagos e mesmo água salgada, entrando na água sempre que podem.

  3. Celindo, parabéns pelo Blog. Estou adorando. Essa forma de conservação é muito curiosa. Eu imagino que a forma de caça desse animal não deve ser trivial. Portanto, seria razoável pensar que o acompanhamento dos filhotes pelos adultos e o ensino baseado no exemplo devem ser cruciais para o aprendizado e sobrevivência desse gato. Estou enganada? eu não sei muito sobre comportamento. Mas se eu estou certa, nascer de uma gata doméstica e ser colocado no seu habitat semi-águático vai parecer bastante confuso pro pobre gatinho clonado. Sem contar os inúmeros “poréns” das técnicas de clonagens atuais, como a idade celular, a perda de diversidade genética e etc. comenta ai. bjs

    • Ju,
      nesse caso, o filhote recém-nascido poderia ficar sob os cuidados de uma fêmea adulta que seria sua “mãe de aluguel”. Não tenho certeza se funcionaria, mas vale a pena tentar pois já deu certo com outras espécies. Além do mais, boa parte desse comportamento é inato e não ensinado aso filhotes.

      Obrigado pelos comentários! Bjo.

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