Medicina animal

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Desde de pequenos recebemos cuidados dos nossos pais. Essa é uma das características principais dos (erroneamente) chamados vertebrados superiores como os mamíferos e aves.

No caso de nós humanos, quando estamos doentes, um desses cuidados está relacionado à utilização de remédios (drogas), sejam eles fabricados ou naturais. Esse comportamento também pode ser observado mesmo em outros primatas como os chimpanzés, que utilizam certas plantas com características medicinais de forma específica para curar algum mal-estar (ver Huffman 2001, na literatura recomendada no final do post).

Muitos dos remédios que utilizamos são de origem vegetal, mas nós primatas não somos que utilizamos a medicina natural. Poucos estudos têm sido realizados sobre automedicação em animais, mas existem evidências crescentes de que outros animais utilizam as propriedades medicinais das plantas. Um exemplo disso, foi demonstrado recentemente por um grupo de pesquisadores dos E.U.A.

Em um estudo publicado no periódico Ecology Letters (ver Lefèvre et al. 2010, na literatura recomendada), os pesquisadores da Emory University demonstram que borboletas-monarcas utilizam plantas medicinais para se protegerem contra parasitas.

A borboleta-monarca (Danaus plexippus, figura 1) é uma espécie bastante conhecida, principalmente pela sua espetacular migração anual desde de o extremo norte dos E.U.A. até o México. Essa espécie exibe um padrão de coloração brilhante laranja, preto e branco em suas asas que, apesar da beleza, é um sinal (aposematismo) para que predadores a evitem, pois trata-se de uma espécie venenosa.

Figura 1: Borboleta-monarca (Danaus plexippus).

As lagartas (larvas) dessa espécie (figura 2) alimentam-se de várias espécies de plantas do gênero Asclepias (milkweed plants), incluindo espécies que contém altos níveis de cardenólidos. Estes compostos químicos não causam nenhum dano às lagartas, mas as tornam altamente tóxicas para predadores mesmo após emergirem de suas crisálidas (pupas) em adultos (borboletas).

Figura 2: Lagarta de borboleta-monarca alimentando-se da planta Asclepias curassavica.

Estudos anteriores tinham sido focados em como as borboletas escolhem as espécies de plantas mais tóxicas para evitarem predadores. Estudando o comportamento das monarcas, os pesquisadores utilizaram-se da hipótese de que essa escolha estaria relacionada com a defesa contra parasitas como o protozoário Ophryocystis elektroscirrha. Este parasita invade o intestino das lagartas e então persistem quando estas tornam-se borboletas adultas. Por sua vez, as borboletas transmitem o parasita para seus ovos quando os depositam. Com isso, quando uma borboleta adulta emerge desses ovos com uma infecção parasítica severa, ocorre um vazamento dos fluídos internos da borboleta e ela morre. Mesmo as que sobrevivem a esse dano, não conseguem voar e acabam morrendo de qualquer forma.

Os pesquisadores realizaram vários experimentos em laboratório utilizando duas espécies de plantas do gênero Asclepias: A. incarnata e A. curassavica. Entre essas duas espécies, A. curassavica foi a que apresentou maiores concentrações de cardenólidos, que serve como uma substância “antiparasítica” para as monarcas.

Dessa forma, os pesquisadores testaram duas hipóteses: (1) larvas de monarca infectadas não possuem a habilidade de consumir preferencialmente a espécie com maiores níveis de cardenólidos; mas (2) fêmeas adultas preferencialmente depositam seus ovos sobre a espécie antiparasítica. Essas hipóteses foram baseadas no fato de que no ambiente natural, as larvas são muito menos capazes de escolher entre as espécies de Asclepias do que os adultos alados.

Com os esperimentos os pesquisadores observaram que as larvas não possuem preferência entre as duas espécies de plantas, indicando que as larvas são incapazes de se “auto-medicarem”, suportando dessa forma a hipótese 1.

Também observaram que as borboletas-monarcas infectadas pelo parasita, preferem depositar seus ovos na espécie A. curassavica. Contudo, quando não infectadas pelo parasita, essa preferência não ocorre. A partir disso, os pesquisadores realizaram outro experimento para testar o efeito das duas espécies de plantas sobre o parasita. Com isso, conseguiram demonstrar que  a utilização de A. curassavica reduz consistentemente o crescimento do parasita, aumentando o tempo de vida das borboletas.

Em contraste, indivíduos não-infectados tiveram um tempo de vida maior quando alimentados com A. incarnata, indicando um custo mais alto para os indivíduos que se alimentam de A. curassavica, em relação a essa medida particular do fitness.

Muitos pesquisadores têm estudado os tipos de plantas que primatas não-humanos se alimentam nas florestas, mas este estudo com as borboletas chama atenção para o fato de que mesmo insetos podem ser indicadores úteis de plantas medicinalmente ativas e que estas observações podem oferecer suporte para a busca de novas plantas com potencial medicinal  também para a nossa espécie.

 

Literatura recomendada:

Clayton, D.H. & Wolfe, N.D. 1993. The adaptive significance of self-medication. Trends in Ecology and Evolution, 8: 60–63.

Huffman, M.A. 2001. Self-medicative behavior in the African great apes: an evolutionary perspective into the origins of human traditional medicine. BioScience, 51 (8): 651-661.

Lefèvre, T.; L. Oliver; M.D. Hunter & J.C. De Roode. 2010. Evidence for trans-generational medication in nature. Ecology Letters, 13 (12): 1485–1493.

Lozano, G.A. 1998. Parasitic stress and self-medication in wild animals. Advances in the Study of Behavior, 27: 291–317.

Malcolm, S.B. & Brower, L.P. 1989. Evolutionary and ecological implications of cardenolide sequestration in the monarch butterfly. Experientia, 45: 284-295.

Moore, J. 2002. Parasites and the Behavior of Animals. Oxford University Press, Oxford.

Wolinska, J. & King, K.C. 2009. Environment can alter selection in host-parasite interactions. Trends in Parasitology, 25: 236–244.

 

PS: Hoje, dia 12 de fevereiro, é comemorado o Darwin Day para celebrar o aniversário desse que foi sem dúvida um dos maiores cientistas da História! Feliz Darwin Day!

Feliz Darwin Day!

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