O Misterioso Lobo Vermelho

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Em praticamente todo o mundo, existem lendas e folclores relacionados aos lobos. Geralmente esses animais são consideradas criaturas astutas, assassinas e que devem ser temidos. Estórias clássicas como a da Chapeuzinho Vermelho e outras sobre lobisomens sempre fazem parte das estórias contadas por diversas pessoas em todo mundo.

Curiosamente, na América do Sul, apesar de não haver lobos nativos, existem muitas estórias que remetem a esses animais. Obviamente, a explicação pra isso é simplesmente a “exportação” dessas estórias. Contudo, no Brasil (e em outras partes da América do Sul), vive um animal que apesar da aparência e do nome, na verdade não é um lobo.

Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará (do tupi agoa’rá, “pêlo de penugem”; nome científico: Chrysocyon brachyurus), também conhecido como “lobo vermelho” devido a coloração avermelhada de sua pelagem (figura 1), é uma espécie endêmica das Savanas sul-americanas, habitando principalmente o Cerrado brasileiro.

Figura 1: O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus). (© Rogério Cunha)

É um animal inconfundível devido às suas singularidades, que o torna o mais popular carnívoro do cerrado brasileiro. Possuem pelagem geralmente vermelho-dourado forte e longos pêlos pretos que formam uma crina que se estende da porção posterior da cabeça até a altura dos ombros, por isso é conhecido como “lobo de crina” (maned wolf, em inglês). Possuem também uma coloração preta na porção terminal das patas e no focinho. O pescoço e ponta da cauda são brancos. Suas orelhas são grandes e eretas, e as pernas alongadas que lhe rende um caminhar peculiar.

Figura 2: Distribuição geográfica do lobo-guará. (fonte: IUCN Red List)

Habitam áreas de vegetação aberta incluindo campos, cerrados e florestas de cerrado. Além do Cerrado brasileiro, essa espécie também é encontrada na em outros países da região central da América do Sul (figura 2) como Argentina, Bolívia, Paraguai e uma pequena parte do Peru e Uruguai (onde possivelmente já encontra-se extinta). São animais territorialistas, e embora dividam o mesmo espaço físico, casais de lobos-guará raramente entram em contato, exceto durante a estação reprodutiva. Durante esse período, ambos emitem vocalizações características. Eles são monógamos facultativos (i.e. machos não são absolutamente necessários para cuidar dos filhotes) e comumente mantém o mesmo casal que possuem área de vida com grande sobreposição. Ambos pais cuidam da sua prole, pelo menos no estágio inicial de desenvolvimento.

A semelhança do lobo-guará com os lobos (Canis lupus) é apenas superficial. Um olhar mais atento revela algumas de suas particularidades como as pernas longas em relação ao corpo, que variam de 80cm a 100cm nos adultos. Além disso, diferentemente dos lobos verdadeiros, os lobos-guará são animais relativamente solitários, mas forma casais durante a época de reprodução. Apesar da semelhança física com lobos, comportamentalmente o lobo-guará assemelha-se mais às raposas (gênero Vulpes): são esquivos e solitários; são onívoros e caçam principalmente pequenos vertebrados como reodores, aves e lagartos e também insetos, embora alimentem-se preferencialmente de frutos, em especial a lobeira (Solanum lycocarpum), cujos frutos ajudam a dispersar.

Quando caça, o lobo-guará movimenta-se sorrateiramente como um gato, um comportamento surpreendente para um animal do seu porte. Ao aproximar-se da presa o lobo-guará permanece atento, com o auxílio de suas grandes orelhas, e ao menor movimento da presa, ele salta sobre ela e a captura com suas longas pernas aplicando uma mordida logo em seguida (figura 3, veja o vídeo também).

ARKive video - Maned wolf hunting

Figura 3: Lobo-guará caçando uma presa. (© Mark Jones / video: Arkive)

Atualmente o lobo-guará tem travado uma verdadeira luta pela sobrevivência devido à destruição do Cerrado brasileiro, um dos 34 hotspots de biodiversidade do planeta. As populações de lobos-guará têm sofrido declínio significativo, com a perda de habitat sendo a principal ameaça a esta excêntrica espécie de canídeo. Projeções para o ano de 2040 indicam que a situação do Cerrado será ainda mais preocupante, indicando que mais 753.776 km² serão perdidos e o bioma terá 78% da sua área original destruída. O lobo-guará, sendo uma espécie restrita a esse bioma, tem cada vez mais perdido seu habitat para as extensas plantações.

A caça também já levou populações ao declínio pelo fato de crenças populares sobre partes do corpo desse animal. Com a expansão da agricultura, o aumento de conflitos devido a predações ocasionais do lobo-guará sobre animais domésticos tem causado grandes pressões sobre as populações remanescentes. Atropelamentos também são importantes causas de mortalidade em algumas populações. Eles são classificados pela IUCN como “quase ameaçados/espécie de baixo risco”, e pelo IBAMA, como ameaçado por extinção (Vulnerável).

O lobo-guará é vítima da má fama associada às histórias de lobo mau. Temido pela população, ele é implacavelmente perseguido e caçado, embora seja um animal solitário, tímido e dócil. A rigor, nem lobo ele é. Evoluiu separado dos demais canídeos e não é parente próximo de lobos ou raposas, com quem também costuma ser comparado. Inicialmente foi classificado como pertencente ao gênero Canis (o mesmo dos lobos e cães domésticos) devido à sua aparência erroneamente interpretada como semelhante a de um lobo, embora também faça parte da mesma família, a dos canídeos. Posteriormente, com uma melhor compreensão da sua biologia, foi remanejado para um novo gênero monoespecífico (composto por uma única espécie), Chrysocyon.

Figura 4: Ilustração do lobo das malvinas do livro "Zoology of the Voyage of H.M.S. Beagle" de Charles Darwin.

Até recentemente, as relações filogenéticas do lobo-guará eram um mistério, por esse motivo foi colocado em um gênero monoespecífico, além de sua aparência e habitos excêntricos. Em 2009, um estudo de Genética de canídeos sulamericanos revelou que o lobo-guará possui um parentesco próximo com outra espécie enigmática, o extinto lobo-das-malvinas (Dusicyon australis, figura 4). O naturalista Charles Darwin, durante sua viagem a bordo do Beagle, coletou um espécime desse “lobo” com jeito de raposa e naquela época (em 1834) já considerava a espécie em vias de extinção, principalmente devido à caça excessiva.

No estudo de 2009, os pesquisadores obtiveram fragmentos de DNA de cinco espécimes de museu, examinaram as variações entre as amostras e compararam-nas com o DNA de espécies vivas. Eles foram capazes de construir uma árvore genealógica (figura 5) e uma linha cronológica de quando as ramificações ocorreram. Estudos anteriores do lobo das Malvinas sugeriram que ele tinha parentesco com as raposas, mas o exame de DNA mostrou que seu parente vivo mais próximo é um canídeo sul-americano, o lobo-guará.

Figura 5: Relações filogenia do lobo-das-malvinas com outros canídeos americanos (Slater et al. 2009. Current Biology, 19)

A perseguição ao lobo-das-malvinas começou quando os espanhóis e os escoceses passaram a criar gado e ovelhas na região. Acreditando que os animais nativos representariam uma ameaça para seus rebanhos, eles decidiram exterminá-los como se fossem pragas. Atualmente, e de forma semelhante, o lobo-guará vem sofrendo da mesma forma com a matança indiscriminada, além da destruição de seu habitat. Felizmente, muitos pesquisadores e ambientalistas têm se esforçado para ajudar na conservação do lobo-guará.

Os pesquisadores Flávio Rodrigues e Rogério Cunha de Paula coordenam a mais completa pesquisa sobre o lobo-guará, uma parceria entre o Cenap e a Pró-Carnívoros, em andamento desde o início de 2004, no Parque Nacional da Serra da Canastra, de 71.525 hectares, localizado no sudoeste de Minas Gerais. Esse projeto inclui o monitoramento de 18 lobos-guará com rádios-colar — sete deles em áreas de fazendas fora do Parque. A Serra da Canastra foi escolhida por ter uma boa densidade populacional da espécie — estimada em 0,1 indivíduo por km2, o que corresponde a 70 ou 80 animais —, além de possuir dados anteriores para comparação, graças a um estudo prévio realizado entre 1974 e 1978, pelo pesquisador James Dietz (ver na bibliografia recomendada), da Universidade de Maryland (EUA).

Os atuais projetos incluem o estudo da ecologia, reprodução e genética populacional do lobo-guará e tem como objetivos conhecer o comportamento social e caracterizar as áreas de vida de cada animal, com relação à disponibilidade de alimentos e hábitats. Os pesquisadores querem saber ainda como os animais jovens se dispersam; caracterizar a variabilidade genética da população, estudar o ciclo reprodutivo em vida livre e comparar as características reprodutivas entre os animais que vivem em áreas protegidas e os que vivem próximos a fazendas e estradas.

Ao longo do projeto, a equipe pretende identificar as principais causas de mortalidade, identificar riscos de doenças transmitidas por animais domésticos (sobretudo cães), além de coletar e congelar sêmen para possibilitar, futuramente, o uso de técnicas de reprodução artificial da espécie. À medida que se acumula conhecimento, podem ser definidas as melhores estratégias e ações para conservação da espécie e de seu hábitat. Uma técnica recente da Genética moderna, é uma das possíveis alternativas para a preservação da espécie.

A clonagem de um lobo-guará começa a surgir como possibilidade para salvar a espécie da extinção (figura 6). A quantidade estimada de indivíduos do lobo mais famoso da região não é mais suficiente para garantir sua perpetuação, mas pesquisadores da Embrapa Cerrados, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, planejam colher e estudar o material genético desse e de outros animais que vivem na região central do país para tentar gerá-los.

A coleta, contudo, só deve ser feita depois que o animal estiver morto. Assim, toda vez que um animal silvestre morrer no Jardim Zoológico de Brasília ou nas florestas da região, os pesquisadores tentarão recuperar suas informações genéticas. Os veterinários do zoológico já foram convocados para fazer a necropsia e separar testículos, ovários e uma parte da orelha, de onde serão retirados os fibroblastos — células fáceis de recuperar e de alta multiplicação — que poderão ser utilizados no processo de clonagem. Para conseguir coletar as células vivas, os cientistas precisam chegar ao material até três dias depois do óbito (para mais informações, ler a notícia do Correio Braziliense).

Figura 6: Utilização de técnicas de clonagem para a conservação do lobo-guará. (© Pablo Alejandro / CB / D.A. Press)

Outra técnica recente, mas que dispensa tecnologias mais modernas, a Educação Ambiental, para minimizar o preconceito sobre o lobo-guará, é uma parte fundamental do trabalho no Parque Nacional da Serra da Canastra. Por ser maior e mais visível que outros animais, o lobo-guará é o primeiro a ser responsabilizado quando some uma galinha ou pinto do galinheiro, mas é mais provável que a culpa seja de uma jaguatirica ou um gambá (que consegue saltar as cercas) do que do guará, que conta com muito mais itens na dieta para se arriscar tanto. Na conversa com os fazendeiros e a população rural da vizinhança, os pesquisadores procuram mostrar que o lobo-guará é um excelente dispersor de sementes e também ajuda a controlar pragas, pois come cobras e ratos próximos às propriedades rurais. E eles ainda oferecem vacinas para os cães na região, de forma a beneficiar tanto os lobos como os moradores. Em breve, um projeto recém-aprovado expandirá o trabalho para alunos e professores das zonas rural e urbana.

Por enquanto, ainda há tempo suficiente para salvar o lobo guará da extinção, o que não foi possível com o lobo das malvinas. O único exemplar levado vivo para a Europa passou uma temporada no Zoológico de Londres, em 1868, e resistiu pouquíssimos anos. Os esforços de preservação foram feitos tardiamente. O lobo das malvinas já tinha pagado um alto preço por causa da ignorância humana. Resta torcer para que o mesmo não aconteça com um dos mais importantes símbolos do Cerrado brasileiro: o lobo guará.

Bibliografia recomendada

Borges, R. 2009. Clonagem pode salvar lobo-guará da extinção. Correio Braziliense.

Campanili, M. 2005. Lobo guará – O tímido e solitário andarilho do Cerrado brasileiro. Revista Terra da Gente, 20: 18-26.

De Paula, R.C.; P. Medici & R.G. Morato. 2008. Plano de ação para conservacao do lobo-guará: análise de viabilidade populacional e de habitat. Brasilia, Brasil: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturals Renovaveis (IBAMA).

Dietz, J.M. 1984. Ecology and social organization of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus). Smithsonian Contributions to Zoology, 392: 1-51.

Emmons, L. et al. 2004. The secret wolf. ZooGoer, 33(6).

Motta-Junior, J.C.; S.A. Talamoni; J.A. Lombardi & K. Simokomaki. 1996. Diet of the maned wolf, Chrysocyon brachyurus, in central Brazil. Journal of  Zoology (Lond.), 240: 277–284.

Rodden, M.; Rodrigues, F. & Bestelmeyer, S. 2008. Chrysocyon brachyurus. In: IUCN 2011. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2011.1. <www.iucnredlist.org>.

Rodrigues, FHG. 2002. Biologia e conservação do lobo-guará na Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF. Tese de Doutorado. Unicamp.

Santos, E.F.; Setz, E.Z.F. & Gobbi, N. 2003. Diet of the maned wolf (Chrysocyon brachyurus) and its role in seed dispersal on a cattle ranch in Brazil. Journal of Zoology, (London), 260: 203-208.

Slater, GJ et al. 2009. Evolutionary history of the Falklands wolf. Current Biology, 19: 937-938.

Wayne, R.K. 1993. Molecular evolution of the dog family. Trends in Genetics, 9: 218–224.

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