Batalha entre dois Reinos

Leônidas nas Termópilas, por Jacques Louis David, 1814. Uma justaposição de vários elementos lendários e históricos da Batalha das Termópilas.

No ano 480 a.C. ocorria na Grécia uma batalha épica, travada entre dois reinos distantes. De acordo com o historiador Heródoto de Halicarnasso, 300 espartanos lutaram, sob o comando do rei Leônidas I, contra o exército persa liderado por Xerxes. Esse episódio da História ficou conhecido como a “Batalha das Termópilas” e até hoje ainda é lembrada. Essa batalha foi magistralmente recontada na obra em quadrinhos de Frank Miller, intitulada “300” e que foi também recentemente transformada em filme (com direção de Zack Snyder).

No mundo natural são travadas muitas batalhas épicas, porém um exemplo delas chama a atenção por também serem travadas por organismos de dois Reinos distantes.

As batalhas no mundo natural são geralmente motivadas por competição por recursos. Animais competem agressivamente entre si por presas e outros recursos, enquanto plantas competem por luz, água e demais recursos.

A competição é um tipo de interação ecológica entre organismos ou espécies, na qual o fitness (às vezes traduzido como “aptidão”) de um é reduzido pela presença do outro. Isso ocorre devido ao fato dos recursos, como água, comida e território, serem limitados. A competição tanto entre indivíduos de uma mesma espécie (competição intraespecífica) ou entre espécies diferentes (competição nterespecífica) é de grande importância em Ecologia, principalmente em Ecologia de Comunidades, uma vez que se trata de um importante fator que afeta a estrutura das comunidades ecológicas.

Figura 1: Relações entre os organismos focos de estudos de interação interespecífica de acordo com Schoener (1983) e Gurevitch et al. (1992). (modificado de Jennings et al., 2010)

A competição é tende a ser mais forte entre organismos filogeneticamente próximos, pois é mais provável a sobreposição de itens alimentares. Por exemplo, em dois artigos de revisão (Schoener, 1983; Gurevitch et al. 1992) de 112 estudos de competição interespecífica em ecossistemas terrestres e aquáticos analisados, a maioria deles que envolviam animais foram conduzidos com táxos relativamente próximos, enquanto apenas um estudo foi focado em organismos de Reinos diferentes (figura 1). Apesar disso, também existem relatos de competição entre organismos filogeneticamente mais distantes, como o exemplo de um artigo publicado recentemente.

Contudo, recentemente foi descrito um caso de copetição entre

organismos de dois Reinos diferentes, plantas e aranhas! Pesquisadores norte-americanos encontraram uma alta sobreposição alimentar entre plantas carnívoras da espécie Drosera capillaris (Família Droseraceae, figura 2) e aranhas da espécie Sosippus floridanus (Família Lycosidae, figura 3). Quando há pouco alimento disponível, os pesquisadores observaram que as aranhas construíram teias maiores, aumentando suas chances de capturar presas, mas às custas das plantas. Segundo os autores do estudo, aparentemente essas aranhas podem se adaptar rapidamente às mudanças nos recursos alimentares, garantindo que elas possam maximizar suas chances de captura de presas.

Figura 2: Planta carnívora da espécie Drosera capillaris (© D. Blanquist)

Figura 3: Aranha da espécie Sosippus floridanus (©Jeff Hollenbeck).

A aranha S. floridanus vive no solo de regiões pantanosas do sudeste da Flórida, onde tecem teias densas para captura de presas que consistem em moscas, grilos e outros insetos. A planta carnívora D. capillaris (drósera) compartilha o mesmo habitat com a aranha (figura 4) e também se alimenta das mesmas presas, capturando-as com o muco viscoso e grudento secretado por suas folhas para depois consumí-los com o auxílio de enzimas digestivas.

Figura 4: A aranha Sosippus floridanus sobre a planta carnívora Drosera capillaris. (© Christopher V. Anderson)

Os pesquisadores da Universidade do Sul da Flórida decidiram testar se essas duas espécies tão diferentes competiam diretamente pelas mesmas espécies de presas e também se havia sobreposição de microhabitats entre elas. O estudo também teve como objetivo a investigação da plasticidade dos traços fenotípicos dos dois organismos na presença e na ausência de um deles, o que indicaria potencialmente a competição. Para isso, realizaram amostragens em locais onde ambas as espécies ocorrem e observaram a localização e número de indivíduos de cada uma das espécies. Eles também coletaram insetos para determinar que tipos de itens alimentares estavam disponíveis para as aranhas e dróseras. Adicionalmente, também conduziram um experimento em laboratório para determinar o quanto a aranha da espécie Rabidosa rabida (da mesma família que S. floridanus) poderia influenciar negativamente o crescimento e fitness das dróseras através da diminuição da disponibildiade de presas em comuns.

Com as observações, os pesquisadores descobriram que quando as dróseras estão presentes as teias contruídas pelas aranhas são maiores que quando não haviam dróseras próximas. Isto sugere que as aranhas podem se adaptar rapidamente a mudanças dos recursos alimentares, aumentando suas chances de captura de presas. Todos os resultados observados no local de estudo foram consistentes com a ideia de que as aranhas estavam mudando diferentes traços fenotípicos em resposta à presença das dróseras. Também foi constatado que as dróseras produziam mais folhas e sementes quando as aranhas estavam ausentes. Quando aranhas e dróseras foram colocadas no mesmo habitat (em laboratório), as aranhas comeram a maioria dos insetos antes que as dróseras pudessem capturá-los. Neste caso, as plantas produziram menos folhas, flores e sementes.

Os resultados do estudo de campo, combinados com os dados de laboratório, indicam que ambos organismos são predadores generalistas, consumindo artrópodes em proporção à disponibilidade destes no ambiente (figura 5). O que demonstra efetivamente a competição entre as aranhas e as plantas carnívoras é o fato da dieta deles terem uma alta sobreposição. Essa alta sobreposição pode ser explicada pelo sistema “passivo” de captura de presas similar – armadilhas com substâncias grudentas para captura de presas – e pela dimensão similar destas armadilhas (folhas das dróseras e teias das aranhas) sobre o solo da região pantanosa que habitam.

Figura 5: Proporção relativa de artrópodes capturados por Drosera capillaris, Sosippus floridanus e por armadilhas artificiais (modificado de Jennings et al., 2010).

Os resultados do estudo demonstram claramente que a presença das aranhas reduziram o fitness das plantas carnívoras. Sendo este o primeiro estudo a demonstrar em ambientes terrestres a competição direta por recursos alimentares entre plantas e animais. Os autores do estudo planejam continuar o estudo pesquisando o efeito causado sobre as dróseras pelo sapo do carvalho (um pequeno anfíbio que também se alimenta de insetos no mesmo habitat). Muitas outras batalhas entre reinos distantes no mundo natural devem ocorrer e ainda não temos conhecimento.

Para saber mais:

Agrawal, A.A. 2001. Phenotypic plasticity in the interactions and evolution of species. Science, 294: 321–326.

Del-Claro, K. & Torezan-Silingardi, H.M. (eds.). 2011. Ecologia das Interações Plantas-Animais – Uma Abordagem Ecológico-Evolutiva. Editora: Technical Books.

Gurevitch, J., Morrow, L.L., Wallace, A. & Walsh, J.S. 1992. A meta-analysis of competition in field experiments. The American Naturalist, 140: 539–572.

Jennings, D.E., Krupa, J.J., Raffel, T.R., Rohr, J.R. 2010. Evidence for competition between carnivorous plants and spiders. Proceedings of the Royal Society B. Biological Sciences, 277: 3001–3008.

Morin, P.J. 2011. Community Ecology, 2nd Edition. Wiley-Blackwell, 424 pp.

Ricklefs, R.E. 2010. A Economia da Natureza. Editora Guanabara, 546 pp.

Schoener, T.W. 1983. Field experiments on interspecific competition. The American Naturalist, 122: 240–285.

Um pensamento sobre “Batalha entre dois Reinos

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