As Manchas do Leopardo

Quase todos já devem ter lido (o livro) ou visto (o desenho ou o filme) sobre a história de “Mowgli, o menino lobo” no “Livro da Selva” (“The Jungle Book“). O “Livro da Selva” foi publicado pelo poeta inglês Rudyard Kipling (1865-1936) em 1894. Sendo a mais conhecida, entre outras histórias, a da criança perdida na selva indiana que cresceu sendo cuidada por lobos.

Além do seu livro mais famoso, Kipling também escreveu uma série de outros ótimos livros, entre eles um que destaco especialmente pelo aspecto naturalista das estórias que muitas vezes parecem relatos científicos da história natural e evolução de muitos animais. O livro em questão é o “Histórias Assim” (“Just So Stories for Little Children“, de 1902) que conta várias histórias onde o autor explica como alguns animais adquiriram suas formas, características e comportamentos atuais.

Por conta de suas excelentes estórias, Kipling foi premiado com um Prêmio Nobel de Literatura em 1907. Entre as tantas histórias, uma que se destaca é aquela onde o autor conta “Como o Leopardo Ganhou Suas Pintas” para poder caçar na floresta. Apesar de ficcional a história tem “um fundo de verdade evolutiva”.

Figura 1: Diversidade de padrões de coloração em felinos selvagens.

Recentemente um grupo de pesquisadores do Reino Unido liderados por William Allen publicou na revista Proceedings of the Royal Society B um estudo (ver em Refefências recomendadas no final do post) no qual examinaram os padrões de listras e manchas de várias espécies de felinos selvagens (Figura 1) com intenção de compreender melhor a grande variedade de padrões de coloração nesses animais. Para isso, examinaram os padrões de coloração de 37 espécies de felinos selvagens através de imagens e calssificando-as com auxílio de fórmulas matemáticas.

Segundo os pesquisadores, felinos como os leopardos (Figura 2) que passam muito tempo sobre árvores e ativos nos momentos de menor itensidade de luz são mais prováveis de possuir padrões complexos e irregulares. Mesmo não sendo o primeiro estudo a sugerir que felinos necessitam desses padrões de coloração para se camuflarem nas florestas densas e outros ambientes, dessa vez os pesquisadores analisaram os padrões de coloração detalhadamente em suas formas e complexidades, assumindo que esses dois fatores são vitais para a camuflagem dos felinos.

Figura 2: Leopardo (Panthera parda) sobre uma árvore com uma presa recém-abatida (Flickr / ©Miros Photography).

Algumas espécies possuem padrões de manchas particularmente irregulares e complexas. Esse padrão depende do habitat e também de como as espécies utilizam esse habitat. Algumas espécies são noturnas ou vivem mais em árvores do que no solo; esse modo de vida também influencia a complexidade das manchas. Os felinos de florestas tropicais e de vida arbórea não só tendem a ter mais manchas como também possuem o padrão mais irregular e complexo de manchas na pelagem.

Figura 3: Onça-pintada (Panthera onca) com padrão de coloração melânico (Flickr: ©Sedenir Taufer).

Pelagens com padrão melânico, que são mais comuns em leopardos (Panthera parda) e onças-pintadas (Panthera onca) (Figura 3) mas não registradas em guepardos, são típicas de espécies ativas tanto durante o dia quanto à noite e que ocupam uma grande variedade de habitas.

Figura 4: A suçuarana (ou puma) possui um padrão de coloração sólida, sem manchas (Flickr ©Dawn Ryan).

Pelagens de coloração sólida (Figura 4) são típicas de felinos ativos durante o dia e que normalmente vivem apenas no solo e ocupam habitats abertos, como planícies e desertos, como no caso das suçuaranas (Puma concolor). Já o padrão listrado, como nos tigres, continua um incompreendido.

A  ideia, como no conto de Kipling, de que manchas complexas evoluíram nos leopardos (e outros felinos) para que pudessem se camuflar na selva é totalmente fictícia, mas de acordo com os pesquisadores, esses padrões de coloração realmente evoluíram nesses habitats. Apesar do estudo não explicar exatamente o mecanismo de evolução das manchas, os pesquisadores encontraram uma série de medidas de irregularidade e complexidade de padrões e as correlacionaram com o habitat das espécies afim de explicar o comportamento destes. Dessa forma, concluíram que a utilidade dos padrões de coloração para a sobrevivência das espécies pode ser relacionado a um modelo matemático de como esses padrões surgem dando mais informações de como as espécies vivem.

A explicação vem, como seria de se esperar, da Genética. Quando o padrão de coloração é posicionado na árvore filogenética dos felinos é possível perceber que padrões emergem e desaparecem com muita frequência dentro da família dos felinos (Felidae). Essa interessante característica sugere que pelo menos um mecanismo genético em particular é capaz de resultar em diferentes padrões de coloração.

Biólogos anteriormente teorizavam que os padrões de coloração dos felinos selvagens era utilizado para atrair membros do sexo oposto. Contudo, os pesquisadores do artigo aqui comentado, explicam que se esse fosse o motivo, como previsto na Teoria de Seleção Sexual, era de se esperar que machos e fêmeas apresentassem padrões distintos, mas não é o caso. Outra explicação anterior sugere que os padrões serviriam como sinalizadores sociais, mas também se mostra uma ideia falha, pois esses padrões não demonstram relação com o sistema social de muitos desses felinos, como no caso dos leões que mesmo não possuindo padrões complexos, vivem em bandos (Figura 5).

Figura 5: Uma família de leões na savana africana (Flickr ©BJHMELAU).

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Bibliografia recomendada

Allen W.L., I.C. Cuthill, N.E. Scott-Samuel & R. Baddeley. 2011. Why the leopard got its spots: relating pattern development to ecology in felids. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 278 (1710): 1373–1380.

Macdonald D. & A. Loveridge. 2010. The biology and conservation of wild felids. Oxford University Press, Oxford. 736 pp.

Stankowich, T., T. Caro & M. Cox. 2011. Bold coloration and the evolution of aposematism in terrestrial carnivores. Evolution, 65 (11): 3090–3099.

Sunquist M.E., F. Sunquist. 2002. Wild Cats of the World. Univ. of Chicago Press, Chicago, 462 pp.

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