Lobo em pele de cordeiro

Uma fábula antiga conta a estória de um lobo que certa vez encontrou a pele de um cordeiro. O lobo então teve a ideia de utilizá-la como disfarce para conseguir comida mais facilmente, podendo assim chegar mais perto do rebanho e poder escolher a presa que quisesse sem ser percebido.

Essa estratégia também é utilizada por um inseto, como descrito em um recente artigo.

Os pesquisadores Anne Wignall (do Departamento de Ciências Biologicas da Macquarie University, Asutrália) e o co-autor Phillip Taylor, investigaram o comportamento predatório do percevejo assassino Stenolemus bituberus (Família Reduviidae, Figura 1). O resultado dessa pesquisa foi publicado no periódico científico Proceedings of the Royal Society B.

Figura 1: O percevejo assassino da espécie Stenolemus bituberus (Família Reduviidae) (© Anne Wignall).

O percevejo estudado utiliza uma estratégia de forrageamento bem inusitada. Ao encontrar uma teia de aranha, o percevejo a investiga tocando levemente os fios. Durante esse comportamento, o percevejo realiza movimentos irregulares aproveitando-se de pertubações ambientais na teia (causadas pelo vento, por exemplo) e com o auxílio de outras vibrações causadas pelo seu próprio deslocamento, o percevejo assassino cria uma espécie de efeito de camuflagem para esconder sua aproximação.

Para a realização do estudo, os pesquisadores coletaram aranhas e percevejos nos arredores da própria universidade. Também coletaram pequenas moscas e afídeos (pulgões) — presas comuns das aranhas — e folhas para simular detritos que caem nas teias. As aranhas e suas teias foram colocadas sobre uma mesa com isolamento de vibrações para que apenas as vibrações causadas pelas presas e as folhas caindo na teia fossem detectadas e mensuradas. As vibrações na teia causadas pelos percevejos assassinos também foram registradas.

Aranhas normalmente tendem a não responder a vibrações causadas por detritos que caem na teia. No caso das fêmeas, elas reagem a vibrações características na teia causadas por machos como parte do comportamento de cortejo. As aranhas reagiram também às vibrações causadas pelo percevejo assassino. Os pesquisadores observaram que as medições de vibrações do percevejo eram bastante similares às de um inseto preso na teia se debatendo.

Ao observarem o comportamento do percevejo, os pesquisadores perceberam que caso haja uma aranha na teia, ele passa a manipular os fios de maneira que faz parecer para a aranha que há uma presa capturada na teia (Figura 2a). A aranha então reage se aproximando cuidadosamente, como normalmente faz ao perceber uma presa na teia, até chegar ao ponto da teia onde o percevejo está. Quando esta chega perto o suficiente, o percevejo realiza outro curioso truque, uma espécie de “hipnotismo“. O percevejo a toca de leve com suas antenas, o que segundo os autores, ajuda a confundir ainda mais a presa (Figura 2b).

Figura 2: a) Estratégia de manipulação da teia de aranha pelo percevejo Stenolemus bituberus. b) O percevejo assassino posicionando-se para atacar sua presa. (Wignall & Taylor, 2010)

Após esse comportamento, com a presa posicionada, o percevejo dá o golpe mortal utilizando seu aparelho bucal modificado ou rostro (ver vídeo abaixo). A aranha que “pensava” estar conseguindo uma refeição fácil, ao invés disso acaba ela mesmo sendo a refeição de outro.

O comportamento de ataque realizado pelo percevejo S. bituberus é conhecido como mimetismo agressivo (aggressive mimicry). Esse comportamento é uma forma de mimetismo no qual predadores, parasitas e parasitóides utilizam sinais similares aos de presas, evitando que sejam identificados pelos seus organismos alvos. De certo modo, esse comportamento se desenvolve a partir da evolução de alguma forma de comportamento de exploração de presas. Daí a analogia com a fábula do “lobo em pele de cordeiro“, embora nesse caso os mímicos, obviamente, não estão enganando suas presas intencionalmente.

Contudo, as aranhas são presas perigosas. Os pesquisadores observaram que em algumas oportunidades os percevejos eram contra-atacados pelas aranhas, sendo mortos e então consumidos pela aranha que então caçava. O risco disso acontecer foi muito maior quando a aranha se aproximava rapidamente de maneira agressiva e sem pausas.

Assim, da mesma forma que o lobo no final da fábula, às vezes o “feitiço se volta contra o feiticeiro” (Figura 3).

Figura 3: Aranha capturando um percevejo assassino. (©D’Arcy Allison-Teasley)

Bibliografia recomendada

Craig, CL. 1995. Webs of Deceit. Natural History, 104 (3): 32–35.

Jackson, R. R. 1995. Eight-legged tricksters: Spiders that specialize at catching other spiders. BioScience, 42: 590–98.

Pasteur, G. 1982. A classificatory review of mimicry systems. Annual Review of Ecology and Systematics, 13: 169–199.

Wallace, AR. 1870. Mimicry, and other protective resemblances among animals. In: Contributions to the Theory of Natural Selection. A Series of Essays, pp. 45-129. London: Macmillan.

Wickler, W. 1965. Mimicry and the evolution of animal communication. Nature, 208 (5010): 519–21.

Wignall, AE & Taylor, PW. 2010. Assassin bug uses aggressive mimicry to lure spider prey. Proceedings of the Royal Society B, 278 (1710): 1427-1433.

Wignall, AE, RR Jackson, RS Wilcox, PW Taylor. 2011. Exploitation of environmental noise by an araneophagic assassin bug. Animal Behaviour, 82 (5): 1037-1042.

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