O brilho do escorpião

A Lua (satélite natural da Terra) é um corpo celeste sem luz própria. É bem provável que qualquer pessoa sabe que o a luz do luar é proveniente do reflexo da luz do Sol sobre ela, projetando-se na Terra.

Alguns organismos, possuem a capacidade de emitir luz própria, um fenômeno conhecido como bioluminescência (confira o post “Luz viva” aqui no blog Histórias Naturais). Embora erroneamente considerados como bioluminescentes, a luz emitida pelos escorpiões tem uma certa semelhança com o que ocorre com a Lua.

Escorpiões (Arachnida, Scorpiones; figura 1) são aracnídeos predadores de hábitos solitários e noturnos em sua maioria. São facilmente reconhecidos pelo seu padrão corporal com dois pares de pinças (pedipalpos) e o ferrão (aguilhão) no final do abdômen (télson), padrão este que é semelhante ao de alguns dos seus antigos ancestrais marinhos, os euripterídeos (Eurypterida). O fóssil mais antigo de escorpião já encontrado, data de 430 milhões de anos, pertencendo portanto ao Período Siluriano e era um animal marinho. Todas as espécies atuais de escorpiões são totalmente terrestres. São encontrados em quase todo o planeta, com exceção apenas da Antártica, em ambientes terrestres variados. Apesar de temidos por causa dos acidentes causados por suas ferroadas, poucas espécies são capazes de causar danos graves com sua peçonha (toxina).

Figura 1: Escorpião da espécie Rhopalurus rochae (família Buthidae). (foto: arquivo pessoal do autor)

Os escorpiões também exibem uma característica peculiar, sendo capazes de emitir um brilho fluorescente quando expostos à luz ultravioleta (figura 2). Essa característica está presente nas mais diferentes espécies de escorpiões. Mesmo em fósseis preservados em âmbar essa característica pode ser observada.

fluorescência ocorre quando moléculas chamadas fluoróforos (ou fluorocromos) absorvem luz em um comprimento de onda e então emitem luz em um comprimento de onda mais longo. Nos últimos anos, a fluorescência tem sido descrita em um amplo número de organismos, contudo a história evolutiva e função biológica dessa característica ainda é pouco compreendida em muitos desses organismos.

Figura 2: Escorpião da espécie Leiurus quinquestriatus (família Buthidae) exposto à luz UV. (© Trevor Hartsell)

Muitas hipóteses foram sugeridas para a explicar a função biológica de tal característica: comunicação, defesa entre outras. Um estudo recente, publicado na revista Animal Behavior, oferece uma explicação para tal característica: o corpo inteiro desses aracnídeos pode ser uma espécie de olho, que percebe as variações de luz e ajuda o animal a se proteger de predadores.

Mesmo em ambientes muito escuros, os escorpiões costumam se abrigar debaixo de pedras, troncos caídos ou outros substratos semelhantes. Uma vez que escorpiões possuem olhos rudimentares, a capacidade de perceber luz UV é bastante útil para esses aracnídeos. Essa capacidade poderia funcionar como um alarme para os escorpiões pois mesmo a noite poderiam perceber a luz UV no ambiente e assim procurar um abrigo adequado.

O estudo em questão foi realizado com o escorpião  Paruroctonus utahensis (família Vaejovidae; figura 3) uma espécie típica de alguns desertos dos Estados Unidos. Devido à quase ausência de sombras nos desertos mesmo a noite, os cientistas especularam que os escorpiões captam a luz UV com o auxílio de sua carapaça e a transformam em luz verde (visível para eles), possibilitando-os a perceberem melhor o ambiente onde se encontram. Para comprovar tal hipótese, realizaram testes com os escorpiões em um ambiente controlado: uma câmara escura. Após algum tempo na câmara escura, os animais eram expostos a luz em diferentes comprimentos de onda. Ao serem expostos dessa forma, os escorpiões fugiam da fonte luminosa. Mesmo quando os pesquisadores cobriam os olhos dos escorpiões com papel alumínio, embora tornaram-se menos sensíveis a comprimentos de onda entre verde e azul, continuavam fugindo da luz UV da mesma forma.

Figura 3: Um escorpião da espécie Paruroctonus utahensis alimentando-se de um grilo. Exposto à luz ultravioleta (acima) mostrando a fluorescência do seu exoesqueleto e exposto à luz branca (abaixo) mostrando sua carapaça com a coloração normal, quase translúcida. (©Douglas Gaffin/University of Oklahoma)

Segundo os autores, na próxima etapa do estudo tentarão tornar a carapaça dos escorpiões insensíveis a luz ultravioleta e realizar novos experimentos para confirmar a teoria de que estes conseguem captar luz UV com suas carapaças e utilizar isso para buscar um abrigo sobre diferentes tipos de substratos.

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Bibliografia

Douglas D. Gaffin, Lloyd A. Bumm, Matthew S. Taylor, Nataliya V. Popokina, Shivani Mann. 2012. Scorpion fluorescence and reaction to light. Animal Behaviour, 83 (2): 429–436.

Gregory R.C. Blass, Douglas D. Gaffin. 2008. Light wavelength biases of scorpions. Animal Behaviour, 76 (2): 365–373.

Lawrence, RF. 1954. Fluorescence in arthropoda. Journal of the Entomological Society of Southern Africa, 17: 167–170.

Brownell, PH, G. Polis (eds.). 2001. Scorpion biology and research. Oxford University Press, Oxford.

Stachel, SJ, SA Stockwell, DL Van Vranken.  1999. The fluorescence of scorpions and cataractogenesis. Chemistry & Biology, 6 (8): 531–539.

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