Quatro-olhos

Se você usa óculos, então é bem provável que já deve ter tido que ouvir seus amigos te chamando de “quatro-olhos”…mas ainda se já usava óculos na época da escola. E não adianta de nada explicar que os óculos não são um par extra de olhos…as piadinhas continuam.

Outros animais não praticam esse tipo de bullying. Seja por questões comportamentais óbvias ou pelo fato de outros animais não usarem óculos. Porém, existe uma espécie de peixe que bem que poderia sofrer do mesmo jeito que nós usuários desse instrumento de correção óptica.

Entre os animais, existem muitas espécies com vários olhos. Os insetos podem possuir dezenas deles, formando seus olhos compostos! As aranhas podem ter até oito olhos. Alguns animais nem mesmo os possuem, como no caso dos cnidários. Contudo, entre os animais vertebrados, todas as espécies compartilham a característica de possuírem dois olhos embora em alguns casos, como em peixes cavernícolas os olhos podem estar ausentes (leia o post “A fossilização gênica e os peixes de cavernas” no blog Biologia Evolutiva).

As espécies de peixes do gênero Anableps (Ordem Cyprinodontiformes; Família Anablepidae – figura 01), são quase uma exceção a esse padrão ocular dos vertebrados. Esses peixes são conhecidos pelo nome comum de “peixes quatro-olhos”. Existem três espécies conhecidas de peixe quatro-olhos que estão distribuídas entre o sul do México e América Central (A. dowi) e nos rios da região amazônica do Brasil (A. anableps e A. microleps). São peixes típicos de ambientes estuarinos, podendo ser encontrados também em regiões mais acima dos rios e apenas raramente em águas costeiras e alimentam-se preferencialmente de pequenos insetos e algas que se mantém na superfície da água.

Figura 01: Peixes da espécie Anableps anableps (foto: E.Naus).

Figura 01: Peixes da espécie Anableps anableps (foto: E.Naus).

Figura 02: Estátua de um tralhoto na cidade de Curuçá - PA (Foto: Pedro Paulo).

Figura 02: Estátua de um tralhoto na cidade de Curuçá – PA (Foto: Pedro Paulo).

No Brasil, esses peixes são também conhecidos pelo nome comum de tralhoto. Embora sejam quase que desconhecidos nas demais regiões do país, no norte são muito conhecidos, sendo modelos de esculturas (figura 02), inspiração para músicas folclóricas ou mesmo objeto de um diálogo que se desdobra no conto “A casa ilhada” (ver em Leitura recomendada, no final desse post) do escritor manauara Milton Hatoum. Neste conto, o narrador relata uma cena em que observava um destes “teleósteos de olhar cindido”, no aquário do Bosque da Ciência, em Manaus: “Então eu soube que o tralhoto, com seus olhos divididos, vê ao mesmo tempo o nosso mundo e o outro: o aquático, o submerso” admira-se o narrador, após sua conversa com o cientista Lavedan.

Apesar de ser conhecido como peixe quatro-olhos, o tralhoto na verdade possui apenas dois. O motivo desse nome, é que as suas pupilas são subdividas em duas seções, o que faz parecer que possuem quatro olhos. Nós humanos, usamos óculos para corrigir problemas da visão, os tralhotos, de modo análogo, utilizam suas pupilas duplas para corrigir um problema também.

Quando olhamos por cima da água para algum animal ou objeto que está submerso nela, a posição que observamos o objeto não é sua posição real. Isso ocorre devido a diferença entre os índices de refração do ar e da água. Animais aquáticos, como os peixes, precisam compensar esse problema “calculando” a posição de objeto fora d’água, como faz o peixe arqueiro do gênero Toxotes (clique para ver o vídeo).

Outro problema ocasionado pela refração é a chamada “Janela de Snell“. Esse fenômeno acontece quando se está submerso na água e olha para fora da superfície. Devido à refração da luz na superfície da água, o campo de visão é limitada em cerca de 96 graus. Depois desse ângulo não é possível ver mais nada além da superfície.

Figura 03: Um tralhoto nadando rente à superfície da água (Foto: Andreas Werth).

Figura 03: Um tralhoto nadando rente à superfície da água (Foto: Andreas Werth).

Os tralhotos conseguem contornar esse problema graças às suas pupilas duplas, conseguindo ver em um ângulo mais amplo. Esses peixes costumam nadar próximo à superfície da água com seus grandes olhos ficando metade abaixo e metade acima da superfície da água (figura 03). As lentes dos seis olhos também diferem em espessura para auxiliar ainda mais no seu modo singular de ver o mundo.

Um estudo recente (Owens et al., 2012) constatou que os olhos do tralhoto possuem opsinas (proteínas sensíveis à luz) diferentes em cada região de suas pupilas duplas. Nós humanos, por exemplo, temos três tipos opsinas sensíveis à luz azul, verde e vermelha, absorvendo luz em comprimentos de onda ligeiramente diferentes, permitindo-nos a enxergar essas três cores e as demais derivadas. Nesse estudo, foi constatado que o tralhoto possui opsinas sensíveis ao verde na parte superior da pupila (que fica para fora da água) e opsinas sensíveis ao amarelo na parte inferior e opsinas sensíveis ao ultra violeta e azul em todo o olho.

Os olhos do tralhoto (figura 04) são adaptações perfeitas para seu estilo de vida. De acordo o estudo, a forma dupla da pupila e tipos diferentes de opsinas no tralhoto são essenciais para que esse peixe enxergue bem em ambos os meios, facilitando a captura de presas e detecção de predadores. As águas de manguezais, ambiente típico do tralhoto, são normalmente escuras e nesse tipo de ambiente a luz amarela é a melhor transmitida. Quando o tralhoto precisa enxergar fora da água, as opsinas sensíveis ao verde são mais úteis.

Figura 04: Esquema do olho de um tralhoto. 1. retina aquática, 2. lentes, 3. pupila aérea, 4. banda de tecido, 5. Íris, 6. pupila aquática, 7. retina aérea, 8. nervo óptico (Fonte: Wikipedia).

Figura 04: Esquema do olho de um tralhoto. 1. retina aquática, 2. lentes, 3. pupila aérea, 4. banda de tecido, 5. Íris, 6. pupila aquática, 7. retina aérea, 8. nervo óptico (Fonte: Wikipedia).

Figura 05: Os quatro olhos do tralhoto (Anableps anableps, Foto: Andreas Werth)

Figura 05: Os quatro olhos do tralhoto (Anableps anableps, Foto: Andreas Werth)

Além do Anableps (figura 05), outras espécies de peixes também são conhecidas por possuírem olhos divididos. Pelo menos três formas distintas de “quatro-olhos” foram produzidas ao longo da história evolutiva. Cada uma dessas espécies evoluiu “quatro olhos” que são funcionalmente vantajoso em cada um de seus próprios nichos ecológicos (Schwab et al., 2001). A história evolutiva dos olhos dos vertebrados por si só já é bastante complexa e interessante e a compreensão de como os processos evolutivos modificaram os olhos desses peixes pode providenciar mais pistas para a compreensão da velocidade e plasticidade potencial da evolução deste incrível órgão.

Leitura recomendada

Miller R. R. (1979). Ecology, habits and relationships of the middle american cuatro ojos, anableps dowi (Pisces: Anablepidae). Copeia 1, 82–91.

Hatoum, M. (2005) A casa ilhada. Estudos Avançados, São Paulo, vol. 19, n. 53, p. 325-329.

Nascimento, F.L. & Assunção, M.I.S. (2008). Ecologia reprodutiva dos tralhotos Anableps anableps e Anableps microlepis (Pisces: Osteichthyes: Cyprinodontiformes: Anablepidae) no rio Paracauari, ilha de Marajó, Pará, Brasil, Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Ciências Naturais, Belém, v. 3, n. 3, p. 229-240.

Owens, L.G., Rennison, D., Allison, W.T., & Taylor, J.S. (2012). In the four-eyed fish (Anablepsanableps), the regions of the retina exposed to aquatic and aerial light do not express the same set of opsin genes.  Biology Letters, 8, 86-89.

Schwab, R.I., Ho, V., Roth, A., Blankenship, T.N., & Fitzgerald, P.G. (2001).  Evolutionary attempts at four eyes in vertebrates. Transactions of the American Ophthalmic Society, 99, 145-157.

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