Aranha-estilingue

“Spiderman, Spiderman Does whatever a spider can
Spins a web any size Catches thieves just like flies
Look out, here comes the Spiderman”

Stan Lee e Steve Ditko, criadores do Homem-Aranha, mal sabiam o quão certos estavam sobre as semelhanças de sua criação artística com o animal do qual seus poderes foram inspirados. O “estilingue-aranha”, uma das técnicas utilizadas pelo herói, seja nos quadrinhos, filmes ou mesmo nos videogames na qual ele utiliza a elasticidade de suas teias para ganhar impulso no salto, foi também observada em uma espécie de aranha! Como dizem, a vida imita a arte…e isso não vale apenas para a vida dos humanos, mas também de outros animais.

Estilingue-aranha

Estilingue-aranha

A família Theridiosomatidae é composta por pequeninas aranhas que ocorrem em todos os continentes (com exceção da Antártica), principalmente na região tropical, onde constroem teias em áreas úmidas e sombreadas. Suas teias possuem diferentes formatos, mas geralmente com um formato modificado a partir do padrão orbicular típico onde a região central não apresenta a espiral de seda adesiva (Figura 01).

Figura 01: Aranha da família Theridiosomatidae em sua teia característica (©Nicky Bay).

Figura 01: Aranha da família Theridiosomatidae em sua teia característica (©Nicky Bay).

Figura 02: Teia típica do gênero Theridiosoma com a aranha segurando o fio de tensão (© J. Cddington).

Figura 02: Teia típica do gênero Theridiosoma com a aranha segurando o fio de tensão (© J. Cddington).

Muitas aranhas dessa família apresentam uma teia de formato cônico que é obtido após a construção de uma teia orbicular bidimensional típica, onde a aranha fixa um fio de seda no centro desta e puxa o mesmo em direção a um substrato fixo qualquer. Dessa forma, a teia é puxada e adquire o formato cônico. A aranha permanece como um elo entre a teia e o fio de tensão, enquanto suas pernas posteriores segura o centro da teia, suas pernas dianteiras puxam o fio de tensão (Figura 02). A pequena aranha mantem-se assim até que uma presa caia na teia e quando isso acontece, a aranha libera o fio de tensão fazendo assim com que a teia volta ao formato bidimensional emaranhando mais facilmente a presa.

Uma interessante modificação desse comportamento foi recentemente observado pelos biólogos Larry Reeves (University of Florida) e Phil Torres (University of Rice) e demonstrado (vídeo abaixo) pelo fotógrafo Jeff Cremer (um dos responsáveis pela página Peru Nature) na floresta amazônica peruana. No comportamento observado, a aranha solta o fio de tensão e transforma-se em um estilingue em alta velocidade. Essa estratégia é especialmente eficaz contra presas que voam lentamente perto da teia. Essas aranhas demonstram ter uma predileção por mosquitos, uma vez que são as principais presas capturadas. Os mosquitos costumam voar com as pernas extendidas de maneira que suas asas nunca toquem nas teias antes de suas pernas, dificultando a possibilidade de serem capturados por teias comuns. Alguns mosquitos, chegam a repousar em algumas teias sem ficarem presos ou mesmo atraírem a atenção das aranhas

Figura 03: Uma Theridiosomatidae (Naatlo sp.) pronto para se lançar sobre uma presa (© Larry Reeves).

Figura 03: Uma Theridiosomatidae (Naatlo sp.) pronto para se lançar sobre uma presa (© Larry Reeves).

A eficácia desse comportamento está no fio de tensão que, quando liberado, faz a teia se projetar a uma velocidade incrivelmente alta, emaranhando facilmente uma presa atingida. Dessa forma, a aranha é capaz de capturar insetos que normalmente não podem ser facilmente capturados em teias adesivas comuns uma vez que o impacto destes, ao tocar a teia, não é suficiente para prendê-los. Além disso, mesmo que a aranha erre o alvo, ela volta rapidamente ao fio de tensão, estica novamente a teia e em poucos segundos está pronta para mais um tiro (Figura 03).

Apesar dos biólogos pensarem tratar-se, à primeira vista, de um comportamento totalmente inédito, o mecanismo de tensão da teia foi descrito em 1932 pelo naturalista Richard Hingston (ver em Bibliografia recomendada no final do post). Contudo, permaneceu basicamente desconhecido ao longo do tempo e ainda precisa ser melhor esclarecido. Quanto à aranha, os pesquisadores acreditam pertencer ao gênero Naatlo (provavelmente N. splendida), podendo mesmo ser uma espécie nova.

É fato conhecido de que as aranhas apresentam uma surpreendente diversidade de espécies e também de comportamentos que muitas vezes são (como nesse caso) descobertos aleatoriamente graças às observações feitas em campo, mesmo quando o objetivo de um estudo não esteja focado especificamente naquela espécie.

Assim, fica claro perceber a necessidade de mais estudos sobre muitas espécies de aranhas (e outros animais “negligenciados”) que ainda podem nos apresentar comportamentos e outras características biológicas intrigantes.

Bibliografia recomendada

Coddington, J. A., & Coddington, J. A. (1986). The genera of the spider family Theridiosomatidae. Smithsonian Institution Press.

Foelix, R. (2010). Biology of spiders. Oxford University Press.

Hingston, R. W. G. (1932). A naturalist in the Guiana forest. Edward Arnold & Co., London.

Wienskoski, E. (2010). The genus Naatlo (Araneae: Theridiosomatidae): distribution and taxonomic history. Revista Brasileira de Biociências, 8 (2).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s