O jacu e os porcos

Road-Runner-Rules

Figura 1: Papa-Léguas e Coiote Coió.

Talvez aqueles mais novos não devem conhecer aquela clássica série animada da Looney Tunes na qual o Coiote Coió (Wile E. Coyote) tentava desesperadamente capturar o Papa-Léguas (Road Runner), que sempre conseguia escapar rapida e astuciosamente de todos os planos e armadilhas preparados pelo Coiote (Figura 1).

Apesar de ser “apenas” uma série animada, ambos os personagens são inspirados em animais reais: o coiote (Canis latrans Figura 2a), provavelmente mais conhecido por ser um canídeo nativo comum dos EUA e parente próximo dos lobos (Canis lupus); e menos conhecido, porém famoso graças ao desenho animado, o papa-léguas ou cuco terrestre (Geococcyx californianus – Figura 2b), ave típica do norte do México e sul dos EUA, onde inclusive é a ave símbolo do estado do Novo México.

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Figura 2: a) Coiote (Canis latrans – Foto: Linda Eliott @Flickr); b) Papa-léguas (Geococcyx californianus – Foto: Dominic Sherony @Flickr).

Apesar de ambos animais não existirem aqui no Brasil, uma ave da mesma família do papa-léguas vive por aqui e apresenta um comportamento interessante que lembra a astúcia do seu primo famoso no desenho animado.O jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi – Figura 3) é uma ave da família dos cucos (Cuculidae) endêmica da Mata Atlântica. Por conta da sua raridade nesse bioma, é uma espécie que necessita de estudos em relação a seu estado de conservação, uma vez que o mesmo vem sendo destruído cada vez mais. O jacu-estalo é típico de florestas primárias e vive a maior parte do tempo andando e pulando no chão, tendo o hábito de seguir formigas-correição para capturar pequenos animais enquanto estes tentam fugir dos enxames de formigas (Lopez-Lanuz e colaboradores, 1999). Além disso, também costumam seguir bandos de macacos para se alimentarem das fezes destes, contendo restos de frutos e das sementes que não foram digeridas (Siegel, Hamilton e Castro, 1989).

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Figura 3: Jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi – Foto: Beth Hamel @Flickr).

Essa ave também é conhecida por seguir manadas de porcos selvagens como o cateto (Pecari tajacu) e o queixada (Tayassu pecari), ambos da família Tayassuidae. Essas duas espécies de porcos selvagens forrageiam no solo das florestas escavando na serapilheira e espalhando detritos em busca de e frutas, sementes, brotos, raízes e folhas, e também de pequenos invertebrados e até vertebrados como sapos, lagartos e filhotes de aves. Esse comportamento faz com que pequenos vertebrados e invertebrados fiquem mais expostos, facilitando assim a captura destes pelo jacu-estalo, que devido a sua agilidade, consegue capturá-los facilmente. Por conta desta conhecida associação, o jacu-estalo é também conhecido pelos nomes comuns de jacu-porco ou jacu-queixada.

Essa associação entre o jacu-estalo e os porcos selvagens pode ser definida como um tipo de comensalismo, um tipo de interação ecológica na qual um organismo obtém alimento ou outros benefícios pela interação sem causar prejuízos ou danos à outra espécie envolvida. Contudo, um estudo recente realizado por Fábio Raposo do Amaral da Universidade Federal de São Paulo e colaboradores de outras instituições do Brasil e dos EUA, demonstrou que essa relação é ainda mais complexa (Amaral e colaboradores, 2017).

Nesse estudo, os pesquisadores perceberam que o comportamento de estalar o bico para produzir sons realizado pelo jacu-estalo (daí a origem do nome comum da ave) era muito similar aos sinais acústicos produzidos pelas duas espécies de porcos selvagens mencionadas anteriormente. Com isso, conseguiram demonstrar que o som produzido pelos jacus-estalo é mais similar ao som produzido pelo estalar dos dentes dos porcos selvagens do que ao som produzido por aves proximamente relacionadas, pertencentes ao gênero Geococcyx (o mesmo do primo famoso dos jacus, o papa-léguas).

Assim, os autores do estudo propõem duas hipóteses. Na primeira hipótese, devido aos porcos selvagens serem conhecidos por evitar ataques de grandes predadores às suas manadas, chegando até mesmo a enfrentar e matar onças (Scognamillo e colaboradores, 2003)! Ao imitar os estalos destes porcos, os jacus podem enganar predadores próximos, seja por desencadear o comportamento de estalar os dentes de porcos próximos ou fazendo parecer para os predadores que há porcos próximos quando estes não estão. Dessa forma, o alarme dos jacus poderia não apenas inibir predadores comuns aos jacus e porcos, como também predadores que atacariam apenas os jacus, mas não os porcos. Dessa forma, os jacus poderiam garantir proteção aos seus ninhos, ovos e recém-nascidos.

A segunda hipótese, envolve a evolução de mimetismo ou convergência acústica, como um alerta mútuo de perigo. Os jacus e os porcos poderiam beneficiar-se do uso destes sinais semelhantes para alertarem-se mutuamente de predadores Assim, os jacus poderiam servir como sentinelas, enquanto os porcos selvagens poderiam garantir proteção. Assim, enquanto os jacus garatem servem como “olhos extras”, os porcos poderiam permanecer menos vigilantes e aumentar seu tempo de forrageamento e alimentarem-se mais e jacus seriam beneficiados por poderem aumentar a ingestão de alimento por conta dos porcos permanecerem mais tempo forrageando, fazendo assim com que mais presas possam ser capturadas pelos jacus.

Por fim, os autores comentam que o mimetismo é uma das possíveis explicações para a semelhança acústica entre o jacu-estalo e os porcos selvagens. Essa semelhança poderia ter se desenvolvido por evolução convergente devido à similaridade do habitat, inércia filogenética (ou restrição filogenética — refere-se às limitações sobre os caminhos evolutivos futuros que foram impostos por adaptações anteriores), como subproduto da seleção de outros traços ou simplesmente por acaso (Dalziell e colaboradores, 2015). Essa interação é uma oportunidade de pesquisa desafiadora, mas potencialmente gratificante, principalmente nas áreas da ecologia e evolução onde deve ser testada através de experimentos no campo e empregando análises comparativas.

REFERÊNCIAS

AMARAL, Fabio Raposo do et al. Bluffing in the forest: Neotropical Neomorphus ground‐cuckoos and peccaries in a possible case of acoustic mimicry. Journal of Avian Biology, 2017.

DALZIELL, Anastasia H. et al. Avian vocal mimicry: a unified conceptual framework. Biological Reviews, v. 90, n. 2, p. 643-668, 2015.

LÓPEZ-LANÚS, Bernabé et al. The ecology and vocalisations of Banded Ground-cuckoo Neomorphus radiolosus. Cotinga, v. 11, p. 42-45, 1999.

SCOGNAMILLO, Daniel et al. Coexistence of jaguar (Panthera onca) and puma (Puma concolor) in a mosaic landscape in the Venezuelan llanos. Journal of Zoology, v. 259, n. 3, p. 269-279, 2003.

SIEGEL, Charles E.; HAMILTON, Joel M.; CASTRO, N. Rogerio. Observations of the red-billed ground-cuckoo (Neomorphus pucheranii) in association with tamarins (Saguinas) in northeastern Amazonian Peru. The Condor, v. 91, n. 3, p. 720-722, 1989.

WikiAves (2008) [jacu-estalo (Neomorphus geoffroyi)]. WikiAves, a Enciclopédia das Aves do Brasil. Disponível em: <http://www.wikiaves.com.br/jacu-estalo>. Acesso em: 07/07/2017.

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